LISTA DE SIMPÓSIOS TEMÁTICOS APROVADOS

X CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIN

 

SIMPÓSIO TEMÁTICO 01

Título do simpósio: Aquisição da linguagem: métodos naturalista e experimental

Coordenadoras: Marina Augusto (UERJ) e Mercedes Marcilese (UFJF)

Este simpósio visa a reunir trabalhos que investiguem o processo de aquisição da linguagem em sentido amplo e restrito, a partir do método naturalista ou com base em metodologia experimental. A expressão “aquisição da linguagem” remete aqui ao processo pelo qual a criança parte de um estado inicial – caracterizado de formas diferentes conforme a abordagem teórica adotada – e atinge um estado final no qual possui um conhecimento completo a respeito de uma (ou mais) língua(s). Em sentido restrito, a aquisição envolve um processo de identificação da língua falada/sinalizada em volta da criança, no grupo social a que ela pertence, de forma natural e espontânea, nos primeiros anos de vida. Em sentido amplo, adquirir uma língua envolve vários aspectos ou dimensões: (i) desenvolvimento de capacidades de expressão e de interação social; (ii) aquisição de conhecimento (linguístico e não linguístico); (iii) organização do pensamento e (iv) constituição da própria identidade, por meio de uma língua. Esses aspectos emergem, em boa medida, de forma concomitante e interagem entre si em diferentes momentos ao longo do desenvolvimento da criança. Um dos caminhos para o estudo da aquisição da linguagem consiste em registrar a fala espontânea da criança. Essa perspectiva é tradicionalmente denominada “método naturalista” e se baseia no registro e análise da produção linguística da criança e seus interlocutores em situações espontâneas de interação. Eisenbeiss (2010, p. 13) destaca que, embora dados naturalistas sejam “versáteis, apresentem alta validade ecológica e sejam um ótimo ponto de partida para a pesquisa sobre a aquisição de um dado aspecto linguístico”, essa metodologia apresenta algumas limitações, sobretudo, a ausência de controle por parte do pesquisador, a dificuldade para o estudo de fenômenos que ocorrem com baixa frequência na língua (e que, portanto, podem nunca ser registrados, embora ocorram eventualmente na fala da criança), a dificuldade para abordar questões de cunho semântico, dentre outros. A metodologia experimental, por outro lado, permite que o pesquisador possa manipular, de forma sistemática, os fatores que deseja investigar de modo a avaliar em que medida essas manipulações afetam o desempenho dos sujeitos testados. Estudos experimentais, ainda que gerem contextos mais ou menos artificiais para o estudo da aquisição, permitem o controle de variáveis que possam afetar o fenômeno que se deseja explorar, de modo a testar o efeito de uma ou mais variáveis. As perspectivas naturalista e experimental não devem ser consideradas excludentes, mas complementares. Ambos os métodos colaboram, assim, para iluminar a compreensão desse complexo processo na medida em que permitem enfocar as diversas dimensões envolvidas, sob diferentes abordagens teóricas.

Palavras-chave: aquisição da linguagem; dados naturalistas; metodologia experimental.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 02

Título do simpósio: Processamento da linguagem

Coordenadores: Elisângela Teixeira (UFC) e Márcio Martins Leitão (UFPB)

A proposta de um simpósio sobre processamento linguístico atende ao fato de que essa subárea da Psicolinguística tem crescido no Brasil, com a criação de alguns novos laboratórios dedicados à pesquisa nessa área, que se somam aos que já existiam (LAPROL/UFPB, Laboratório de Psicolinguísticas e Ciências Cognitivas/UFC, GEPEX/UFF, NEALP/UFJF, ACESIN/UFRJ, LABLING/UFSC, Laboratório Virtual de Psicolinguística/UFMG,LAPAL/PUC-RJ, LAPEX/UFRJ, entre outros).  A partir dessa constatação, o simpósio tem como objetivo dar visibilidade ao que tem sido feito sobre o tema em âmbito nacional, da mesma forma que pretende fomentar a discussão e o debate teórico e metodológico entre os que trabalham nesse campo. Para isso, pretende-se agrupar trabalhos que versem sobre o processamento linguístico nos vários níveis de descrição estrutural. Assim, serão aceitos trabalhos que foquem o processamento de informação fonético-fonológica, modelos de léxico mental e teorias de acesso e representação lexical, modelos e teorias de parser que contemplem o componente sintático da gramática e o processamento de informação de cunho semântico. Busca-se, com esses trabalhos, prover evidências empíricas que sustentem hipóteses explicativas sobre fenômenos de desempenho linguístico observados em português (brasileiro ou europeu) ou mesmo em outras línguas. Especial ênfase será dada a fenômenos que estão na interface entre os níveis morfológico, sintático e semântico, como é o caso do processamento anafórico-correferencial (inter e intrassentencial), o qual está na interface sintaxe-semântica/pragmática, bem como de fenômenos ligados ao processamento linguístico por sujeitos portadores de patologias de linguagem (como a dislexia, a afasia e a gagueira), e de fenômenos relacionados ao processamento linguístico em bilíngues. Estudos sobre aquisição de linguagem que assumam uma perspectiva de processamento linguístico infantil e um modelo de gramática internalizada, buscando caracterizar habilidades precoces de processamento lexical e sentencial, além de objetivarem a caracterização do desenvolvimento da capacidade de processamento fônico e morfossintático, também serão aceitos. Os trabalhos devem se enquadrar não só no tema do processamento linguístico, na forma como aqui descrita, mas devem também utilizar metodologia experimental em algumas das várias técnicas off-line e on-line existentes: leitura automonitorada, priming, julgamento de gramaticalidade controlado, audição automonitorada, rastreamento ocular, EEG, FMRI etc. O referencial teórico sugerido será o da Linguística Formal, em sua vertente gerativista, bem como o de teorias de processamento linguístico que assumam uma visão modular da arquitetura cognitiva humana e a existência de um componente inato para a aquisição e desenvolvimento da linguagem, o que não impede que estudos conduzidos sob uma ótica não modular sejam apresentados. Além disso, espera-se a participação de pesquisadores que possam prover insights sobre o processamento linguístico advindos de áreas afins, como a Psicologia Cognitiva e a Neurociência da Linguagem.

Palavras-chave: cognição; metodologia experimental; processamento.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 03

Título do simpósio: Desafios interdisciplinares na abordagem sociocognitivista da linguagem

Coordenadores: Aurelina Ariadne Domingues Almeida (UFBA) e Paulo Henrique Duque (UFRN)

Pesquisadores, em Linguística Cognitiva, têm discutido a necessidade de se abordarem as interconexões entre cognição e sociedade. Salomão, por exemplo, em 1999, em A questão da construção do sentido e a revisão dos estudos da linguagem, destaca a hipótese sociocognitiva, observando que a linguagem é operadora da conceptualização socialmente localizada. Já Kövecses, em 2007, no seu texto, Universality vs. non-universality in metaphor, reflete sobre como e em que medida as metáforas são importantes, para que cultura e sociedade possam ser compreendidas. Por sua parte, Silva, em 2009, no seu artigo O cognitivo e o social nos estudos linguísticos: inimigos íntimos?, discute a compatibilidade entre as perspectivas social e cognitiva, no âmbito dos estudos linguísticos. Em face do exposto, pode-se constatar que pensadores de diferentes espaços acadêmicos, oriundos de diversos países, expressam a importância de se elaborarem estudos que possam contribuir para a realização de pesquisas, consequentemente, de saberes de cunho sociocognitivo acerca da linguagem, sendo, então, a urgência sociocognitivista colocada na pauta da Linguística Cognitiva, o que, mormente, justifica a proposição deste simpósio. Ademais, constitui-se em justificativa, para tal proposta de simpósio, a elaboração de pesquisas interdisciplinares e, por conseguinte, a socialização de seus resultados, em que serão expostos entendimentos concernentes a possíveis simbioses entre linguística, ciências sociais, antropologia, história, psicologia, entre outras áreas do saber humano que possibilitem compreender a cognição, localizada na sociedade, contemplando, assim, um dos desafios da Linguística Cognitiva: a reflexão interdisciplinar, visando a pensar as variadas inter-relações atinentes aos fenômenos estudados por seus pesquisadores. Isto posto, indica-se, como objetivo geral deste simpósio, a proposição de trabalhos que discutam as íntimas ligações entre sociedade e cognição, gerando saberes relativos a questões que envolvam essas ligações, debatendo, entre outros fenômenos, a conceptualização, a categorização, a metáfora, a metonímia, a polissemia, a multimodalidade, o papel na linguagem da mente corporificada das pessoas partícipes de variadas sociedades. Devem nortear as propostas de trabalhos a serem expostos os pressupostos teóricos desenvolvidos por pesquisadores como Bernárdez (2005; 2008), Geeraerts (1995), Kövecses (2005), Littlemore (2003), Sharifian (2010), Silva (2015; 2010), Tomasello (1999), além de Lakoff e Johnson (1980; 1999), Lakoff (1987), Johnson (1987), Talmy (1978), Langacker (1987; 1991), Grady (1997), Fauconnier (1994), Fauconnier e Turner (2002), Goldberg (1995; 2006), Boojj (2010), entre outros. As bases metodológicas adotadas devem ser as que, em geral, norteiam os estudos em Linguística Cognitiva, de modo que os trabalhos submetidos podem ter viés metodológico quantitativo, qualitativo, ou, ainda, quali-quantitativo; o ponto de vista das discussões pode ser sincrônico ou diacrônico; o corpus pode ser mono ou multimodal, escrito, oral, imagético, verbo-imagético etc., dependendo da linha investigativa selecionada pelo proponente, não havendo qualquer prejuízo decorrente da sua escolha metodológica e dos procedimentos que selecione para elaborar as suas reflexões, desde que adequados ao disposto no seu resumo. Por fim, observa-se que este simpósio oportunizará que se discutam entre 6 e 25 trabalhos que versem sobre o tratamento sociocognitivista da linguagem, atentando-se para alguns desafios da interdisciplinaridade.                            

Palavras-chave: linguagem; sociocognitivismo; interdisciplinaridade.   


SIMPÓSIO TEMÁTICO 04

Título do simpósio: Gramáticas na escola: teorias formalistas e ensino/aprendizagem de língua portuguesa (L1/L2) na Educação Básica

Coordenadoras: Helena Guerra Vicente(UnB) e Roberta Pires de Oliveira(UFSC)

Muito se tem discutido sobre o ensino/aprendizagem de gramática na Educação Básica, chegando-se mesmo a questionar a sua necessidade. Essa dúvida, em parte, se deve ao fato de as aulas de Língua Portuguesa terem sido, por muito tempo, de forma equivocada, “uma prática pedagógica que vai da metalíngua para a língua por meio de exemplificação, exercícios de reconhecimento e memorização da nomenclatura” (BRASIL, 2000, p. 39). A esse problema soma-se o equívoco de se definir como antagônicos, e não complementares, o estudo dos gêneros textuais e o estudo de gramática. Publicações oficiais, tais como os Parâmetros Curriculares Nacionais, foram elaboradas tendo como sustentação teorias voltadas para a leitura e a produção de textos, relegando à gramática papel secundário.  A reflexão sobre as línguas é, no entanto, absolutamente imprescindível. Essa tese se sustenta em dois pilares que correspondem a duas acepções de “gramática”: (i) gramática como “competência”, ou seja, “o conhecimento que o falante tem da sua própria gramática, antes mesmo de ser – ou mesmo sem nunca ter sido – exposto ao ensino formal [...] proporcionado pela escola” (GUERRA VICENTE; PILATI, 2012, p. 4); (ii) gramática como reconstrução científico-teórica que o linguista faz desse conhecimento. A gramática interna, uma propriedade da espécie humana, a Faculdade de Linguagem, é inevitável, sendo “algo que acontece com a criança e não algo que a criança faz” (CHOMSKY, 1998, p. 23, grifos nossos). Esse processo difere drasticamente daquele oferecido pela escola, que envolve o ensino explícito das normas-padrão da língua. Há poucos trabalhos no Brasil sobre uma questão introduzida por Chomsky (1986), que diz respeito a estruturas que o falante adquire ou aprende depois de já ter construído a “gramática nuclear” de sua língua. Esse conhecimento, que, para Haegeman (1994), também envolveria o aprendizado de certas convenções concernentes, por exemplo, a diferenças de registro (formal ou informal), estaria situado em uma “periferia marcada” da gramática do falante. Com base nesses conceitos, Kato (2005) denomina “gramática do letrado” o estado gramatical que soma o conhecimento da gramática nuclear do aluno ao acúmulo de práticas aprendidas na escola, as quais, para a criança brasileira, envolveriam um processo comparável (porém não idêntico) ao aprendizado de uma segunda língua. Embora já haja pesquisas que mostram que ensinar os alunos a construir gramáticas, formulando hipóteses sobre como é a gramática da sua língua, tem um efeito positivo não apenas na produção escrita, mas também na formulação de teorias científicas sobre a natureza em geral (HONDA etat, 2010),  essa perspectiva não aparece nas discussões sobre as aulas de Língua Portuguesa. São esses os dois eixos norteadores deste simpósio: a reflexão sobre a gramática do aluno e a construção de gramáticas pelos alunos (PIRES DE OLIVEIRA; QUAREZEMIN, no prelo). Seu objetivo é, portanto, promover reflexões que, sob uma perspectiva formalista e com o foco em temas como qualidade do input, gramática nuclear e periférica, livro didático, formação de professores, metodologia, entre outros, contribuam para a discussão sobre o ensino/aprendizagem de Língua Portuguesa (L1 ou L2) na Educação Básica.

Palavras-chave: língua portuguesa (L1/L2); ensino/aprendizagem de gramática; teorias formais.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 05

Título do simpósio: Interface sintaxe-semântica: temas em gramática gerativa

Coordenadoras: Isabella Lopes Pederneira (Universidade de London) e Miriam Lemle (UFRJ)

A vertente gerativista da linguística, por si só, atende a uma concepção política igualitária, em virtude da noção básica pela qual se define: princípios e parâmetros.  Os princípios são definições de regularidades vigentes nas gramáticas de todas as línguas do mundo: os universais. Os parâmetros são diferenciações entre as línguas baseadas em critérios formais inteiramente desprovidos de qualquer hierarquização que se possa pautar por critério de valoração sociopolítica. Neste simpósio, temos por objetivo congregar trabalhos em gramática gerativa que envolvam dados sintáticos acompanhados por propostas de leitura semântica, bem como fenômenos semânticos acompanhados de descrição formal. A comparação entre constituintes sintáticos com leitura composicional e outros com leitura idiomática é especialmente indicada para este simpósio, uma vez que a compreensão do fenômeno da idiomatização vem sendo considerada importante para a avaliação da adequação dos modelos de gramática. Linhas teóricas lexicalistas e construcionistas podem ser utilizadas neste simpósio. Estudos de morfologia cabem neste evento, uma vez que, na ótica dos modelos construcionistas - a Morfologia Distribuída e a Exo-esqueletal –, a morfologia é abarcada pela sintaxe. Estudos experimentais também são apropriados, desde que a descrição do experimento esclareça a localização dos dados linguísticos na sintaxe, na semântica ou na interface sintaxe-semântica. A modularidade da linguagem, quando bem entendida, em termos de um conjunto de opções paramétricas localizadas em módulos da mente humana, é uma noção que automaticamente elimina qualquer possibilidade lógica de preconceito linguístico.

Palavras-chave: interface sintaxe-semântica; gramática gerativa; incidência de idiomatizações.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 06

Título do simpósio: Formas de tratamento na sincronia e na diacronia do português e do espanhol

Coordenadores: Leonardo Lennertz Marcotulio (UFRJ) e Márcia Cristina de Brito Rumeu (UFMG)

Os processos de variação e mudança relacionados às formas de tratamento são um tema que tem cada vez mais se evidenciado como o foco de análises no âmbito luso-brasileiro e hispânico. Considerando que a língua portuguesa e o espanhol compartilham um relevante antecedente histórico como indício da herança latina, qual seja o sistema tratamental que contrapunha as semânticas de cortesia (Vos) e de intimidade (Tu), também tais línguas ibero-românicas assistiram à reorganização desse sistema, ainda na época medieval, após a inserção de fórmulas de tratamento de base nominal. O encaminhamento histórico das formas pronominais e das novas formas gramaticalizadas Vossa Mercê > Você / Vuestra Merced > Usted é conduzido por uma série de questões sócio-históricas, culturais, gramaticais e pragmáticas específicas de cada língua e região. Em função do processo de implementação da nova forma gramaticalizada Você no quadro pronominal da segunda pessoa do português, cf. discutido por RUMEU (2013), o que se verifica atualmente no Brasil é um complexo e diversificado quadro de variação linguística, sobre o qual alguns linguistas têm se debruçado a fim de rastrear, descrever e mapear o comportamento das formas pronominais variantes (tu/você), em distintos contextos sintáticos, o que tem evidenciado a configuração de distinto(s) sistema(s) de tratamento nas diferentes regiões brasileiras, cf. discutido por Lopes, Marcotulio, Santos e Silva (2009); Scherre, Dias, Andrade e Martins (2015). Situação análoga é verificada em distintas variedades do espanhol americano, em que também coexistem sistemas específicos que, distribuídos diatopicamente, estão relacionados às formas pronominais , Vos e Usted, cf. Hummel, Kluge e Vasquez Laslop (2010). Pretendemos, neste simpósio, reunir um grupo de investigadores interessados em contribuir, dentro do escopo teórico da sociolinguística histórica e da sociopragmática, com esse debate, considerando uma das línguas ou os dois sistemas linguísticos (português e espanhol) numa dinâmica contrastiva, a partir dos seguintes eixos temáticos: (a) variação e/ou mudança no quadro pronominal da segunda pessoa no português e no espanhol; (b) questões teóricas e metodológicas relacionadas ao estudo do tratamento; (c) formas de tratamento, gêneros textuais e tradições discursivas; e (d) fórmulas e formas nominais de tratamento. Considerando a formação histórica e as complexas relações estabelecidas entre as histórias interna e externa que podem ser relacionadas às configurações atualmente vigentes em variedades do português e do espanhol, ratifica-se a relevância do objetivo principal do simpósio Formas de tratamento na sincronia e diacronia do português e do espanhol como o de fomentar o intercâmbio entre pesquisadores que desenvolvem estudos sobre o tratamento, além de estimular a discussão sobre a dinâmica das formas de tratamento no âmbito luso-brasileiro e hispânico, tanto em perspectiva sincrônica quanto diacrônica.

Palavras-chave: formas de tratamento; português e espanhol; variação e mudança. 


SIMPÓSIO TEMÁTICO 07

Título do simpósio: Variação e mudança linguísticas no âmbito de modelos funcionais

Coordenadores: Marcia Machado Vieira (UFRJ) e Marcos Wiedemer (UERJ)

A este simpósio, interessam trabalhos que tenham, em primeiro lugar, a variação linguística como objeto observacional e/ou objeto teórico e que lidem com a relação entre propriedades de forma (prosódica, fonético-fonológica e morfossintática) e de função (semântica, discursivo-funcional, pragmática e/ou cognitiva). Em discussão, está o papel central ou periférico desse fenômeno na organização do conhecimento linguístico em estudos funcionais, funcionais-cognitivos ou construcionais. Em exame, estão dados do uso obtidos em sincronia ou diacronia e/ou de avaliação subjetiva (percepção, atitude ou crença) sobre usos. Assim, são convidados a participar do presente simpósio trabalhos que se proponham, a partir da intersecção de perspectivas e agendas de pesquisa, a: (i) examinar processos de variação/mudança, gramaticalização/lexicalização, subjetificação e construções linguísticas; (ii) desenvolver perspectivas de análise da variação/mudança linguística através da integração de diversos métodos de coleta e análise de dados; (iii) descrever, explicitar ou interpretar o desenvolvimento e fixação de padrões construcionais. Tendo em vista essas e outras questões, este simpósio pretende contribuir para uma reflexão sobre a centralidade da variação nas análises baseadas nas experiências de uso, pois um grande desafio na análise da linguagem diz respeito à possibilidade de capturar a natureza dinâmica do fenômeno linguístico e a gradualidade da mudança linguística.

Palavras-chave: variação; mudança linguística; modelos baseados no uso.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 08

Título do simpósio: Relações entre crítica textual e linguística histórica: da preparação do corpus à descrição e análise linguística

Coordenadores: Cynthia Elias de Leles Vilaça (UERJ) e Sandro Marcio Drumond Alves Marengo (UFS)

A linguística histórica, segundo Faraco (2010), é o ramo dos estudos da linguagem responsável por estudar os processos de mudança das línguas no decorrer do tempo. Segundo Mattos e Silva (2008), a linguística histórica pode ser tratada por meio de duas vertentes: uma lato sensu, que trabalha com dados datados e localizados, como ocorre em qualquer trabalho de linguística baseado em corpora; e outra stricto sensu, que se dedica à investigação sobre o que muda, como ocorre essa mudança e quais são as motivações condicionantes para que esse fenômeno se apresente nas línguas ao longo do tempo em que são usadas. Na sua proposta de orientação stricto sensu, Mattos e Silva (2008) ainda afirma que a pesquisa pode ser realizada sob dois prismas: o de uma linguística histórica sócio-histórica ou de uma linguística diacrônica associal. Em contexto nacional, é possível verificar que há muitos projetos empenhados, tanto na visão lato sensu quanto na stricto sensu, em suas duas possibilidades de exploração, na descrição das línguas em sua historicidade, bem como na explicação das mudanças linguísticas ocorridas na comparação de dados de duas ou mais sincronias. Logo, os estudos de Linguística Histórica, de História da Língua e de Historiografia Linguística usam como fonte de estudo os textos escritos de documentação remanescente. Dessa forma, tomamos a premissa de que uma má formulação ou alterações significativas nos padrões originais dos textos podem ocasionar problemas na geração dos dados para pesquisas dessas áreas. Assim, a Crítica Textual, nos dizeres de Cambraia (2005), no seu ofício de preparação de edições coesas e fidedignas das fontes históricas escritas, ocupa um lugar relevante nesse contexto. Janotti (2005, p. 21) esclarece que a importância do entendimento do texto, de modo a "conhecer o contexto da produção; descobrir o seu sentido próprio; localizar seus modos de transmissão, sua destinação e suas sucessivas interpretações", é ponto importante para apreensão de problemas e procedimentos pertinentes à compreensão das fontes. Essa afirmativa da autora corrobora a necessidade de intervenção do trabalho rigoroso da Crítica Textual na preparação dos textos que formam os corpora dos estudos científicos que se destinam a investigar o uso e a transmissão da linguagem através dos tempos. Tendo em vista as considerações apresentadas, é importante que se discuta a relação entre a preparação de corpora diacrônicos e suas devidas implicações para o desenvolvimento de pesquisas que tenham como foco a análise e descrição do uso das diversas línguas românicas em tempos pretéritos. Esse intercâmbio de experiências, desde os aspectos metodológicos até as diferentes perspectivas de análises linguísticas que podem ser empregadas, permite o fortalecimento científico desse campo de atuação. Pensando em todos esses aspectos, estabelecemos que os objetivos deste simpósio repousam em reunir pesquisas, em desenvolvimento ou já concluídas, que discutam questões relativas à edição de textos de tradição românica que são tomados como corpora diacrônicos para fins de descrição e análise linguística, além de congregar estudos no âmbito da linguística românica que contemplem perspectivas sobre linguagem e/ou sobre as concepções de línguas em um viés diacrônico.

Palavras-chave: linguística histórica; linguística românica; crítica textual. 


SIMPÓSIO TEMÁTICO 09

Título do simpósio: Gêneros textuais, ensino de gramática e de língua portuguesa

Coordenadoras: Dinéa Maria Sobral Muniz (UFBA) e Elane Nardotto (IFBA)

O presente simpósio objetiva discutir pesquisas que visem ao ensino-aprendizagem de língua portuguesa considerando as contribuições do campo da Linguística, em especial, aquelas orientadas por uma perspectiva do texto como unidade básica de ensino. Desde a década de 80 do século passado, no Brasil, linguistas apresentam propostas de práticas pedagógicas para o ensino da língua portuguesa de forma a fazerem um contraponto com a tradição do ensino de gramática normativa quando tomada, apenas, como objeto exclusivo sem uma reflexão ou inter-relação com as práticas de leitura, escrita e oralidade. Na atualidade, há uma vasta produção bibliográfica que concebe o texto como unidade pedagógica, ao tempo em que toma a gramática tradicional como alvo de críticas.  Isso tem resultado em uma situação em que, muitas vezes, os professores parecem ficar perdidos no momento de relacionar propostas inovadoras oriundas do campo da Linguística do Texto com práticas tradicionais de ensino de gramática. Ou seja, verifica-se que parece não adiantar muito fazer proposições com base em terminologias como “análise linguística”, “conhecimentos linguísticos”, “análise e reflexão sobre a língua”, entre outras, se tais termos se constituem apenas em uma velha “roupagem” para práticas pedagógicas de ensino de gramática normativa em que se desconsidera a dinâmica discursiva dos gêneros textuais de práticas de leitura, de escrita e de oralidade. Algumas questões se impõem: qual a concepção de gramática que norteia a prática pedagógica? Qual o sentido desse ensino e qual a inter-relação possível com atividades de análise linguística? Qual a relação entre gramática, análise linguística, leitura e produção de gêneros textuais orais e escritos? Qual o objetivo do ensino de gramática nas aulas de língua portuguesa? As bases teórico-metodológicas deste simpósio partem, primeiramente, dos estudos de Mikhail Bakhtin, haja vista ser o conceito de gênero algo consolidado no campo da Linguística e constitutivo de práticas pedagógicas de ensino de língua portuguesa; ao mesmo tempo, trata-se de um alicerce se concebermos o conceito de análise linguística para as práticas de leitura, de escrita e de oralidade. De autoras e autores brasileiros, são importantes as contribuições de Ingedore Koch, Luiz Carlos Travaglia, Luiz Antônio Marcuschi, João Wanderley Geraldi, Roxane Rojo, Beth Brait, entre outros. A relevância deste simpósio está em oferecer possibilidades de debater questões relacionadas com o ensino da língua portuguesa, considerando o conceito de gramática, de gêneros textuais e de análise linguística, tomando, como fio condutor, trabalhos e pesquisas que, para além de diagnósticos, apresentem propostas com o objetivo de que os referidos conceitos, nas aulas de língua portuguesa e, ainda, em processos formativos de professores que atuam, sobretudo, na Educação Básica, fiquem mais bem articulados. Perdura, apesar disso, uma questão: o que fazer no sentido de contribuir para mudanças nas práticas pedagógicas de ensino de língua e de gramática?

Palavras-chave: gênero textual; gramática; língua portuguesa.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 10

Título do simpósio: Teoria gerativa: sintaxe e interfaces

Coordenadores: Marcus Vinicius Lunguinho (UNB) e Silvia Regina de Oliveira Cavalcante (UFRJ)

A Teoria de Princípios e Parâmetros (Chomsky, 1981, 1986; Chomsky & Lasnik, 1993) trouxe uma nova maneira de ver a organização da linguagem, e essa nova concepção abriu a possibilidade de buscar os dois maiores objetivos da Teoria Gramatical: a adequação descritiva e a adequação explicativa. Os resultados positivos alcançados pela Teoria de Princípios e Parâmetros fizeram com que os pressupostos dessa teoria fossem repensados à luz de noções como economia computacional e otimização de operações sintáticas. Nascia aí um conjunto de pesquisas que se cristalizou no que hoje se conhece como o Programa Minimalista (Chomsky, 1993, 1995 e trabalhos mais recentes). Esse programa de investigação científica traz para a Teoria Gramatical uma nova maneira de conceber a linguagem humana, a qual passa a ter um desenho minimalista no qual só há lugar para entidades e tecnologias descritivas que sejam conceptual ou empiricamente motivadas. Uma consequência dessa visão sobre a natureza da linguagem humana é a reflexão acerca da arquitetura da gramática, que passa a contar apenas com dois níveis de interface conceitualmente necessários. Sob a ótica dessa nova arquitetura, a gramática das línguas é constituída de Léxico, da Sintaxe (entendida como um sistema computacional para a linguagem humana – CHL), da Forma Fonética (nível de representação que faz a interface do CHL com o sistema sensório-motor) e da Forma Lógica (nível de representação que faz a interface do CHL com o sistema conceitual-intensional). Disso resulta que a linguagem humana é encaixada em dois sistemas de performance e que todas as representações geradas pelo CHL devem ser legíveis nas interfaces, satisfazendo as exigências desses níveis. Essa versão minimalista da Teoria de  Princípios e Parâmetros tem ganhado corpo e força nos estudos de sintaxe comparada, não só nos moldes mais tradicionais de estudos formais, mas também em outros campos. Com a evolução dos estudos em sintaxe minimalista, novas metodologias de investigação foram agregadas à tradicional metodologia de trabalho com dados intuitivos, tais como as metodologias empregadas nos trabalhos de sintaxe diacrônica, que envolvem métodos quantitativos (cf. Kroch, 1989, 2001; Lightfoot, 1999, 2003; Roberts & Roussou 2003, van Gelderen, 2004, 2010, 2011, 2016).Desse modo, os diversos estudos empíricos que têm sido desenvolvidos contribuem não só para responder a questões específicas da arquitetura da gramática, mas também a questões que envolvem aquisição, mudança e processamento da linguagem. À luz dessa discussão, este simpósio tem como objetivo ser um espaço para discussão de trabalhos que tomam como referencial teórico a Teoria de Princípios e Parâmetros na sua versão Minimalista. Serão bem-vindos trabalhos que abordem fenômenos (morfos)sintáticos ou fenômenos que se situem nas zonas de interface (sintaxe-fonologia, sintaxe-morfologia, sintaxe-semântica ou sintaxe-pragmática), cujas perguntas investigativas passem pela arquitetura do modelo em si (trabalhos de cunho mais teórico) e/ou por questões que envolvam aquisição da linguagem, processamento linguístico e variação/mudança linguísticas.

Palavras-chave: teoria gerativa; programa minimalista; interfaces.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 11

Título do simpósio: Estudos sobre análise, produção e ensino de gêneros discursivos na esfera acadêmica

Coordenadores: Ananias Agostinho da Silva (UNIFESSPA) e Francisco Vieira da Silva (UERN)

O atual sistema universitário brasileiro tem incentivado veementemente a produção e publicação de textos acadêmico-científicos comunicativamente relevantes e bem sucedidos, principalmente por meio de políticas de financiamento de bolsas de iniciação científica, de pós-graduação e de outros projetos de pesquisa. Essas políticas têm pressionado alunos, professores e demais pesquisadores a divulgarem os resultados de suas investigações por meio da publicação de artigos para periódicos, capítulos de livros ou mesmo resenhas de livros ou de teses e dissertações como forma de propagar o conhecimento produzido na universidade e de assegurar espaço profissional, uma vez que, “na cultura acadêmica, a produtividade intelectual do pesquisador é medida pela produtividade na publicação” (MOTTA-ROTH; HENDGES, 2010, p. 13). O reconhecimento do cientista e/ou pesquisador, portanto, está intrinsecamente articulado com a responsabilidade de publicar suas descobertas, criações e resultados, nos mais diversos gêneros acadêmicos. Considerando as particularidades desses gêneros que circulam na esfera acadêmica, bem como os modos de produção e de circulação desses gêneros, dada a importância que exercem no âmbito da construção e sistematização do conhecimento científico e da pesquisa na academia, esse simpósio objetiva congregar trabalhos que examinem as várias especificidades dos gêneros acadêmicos, sob as mais variadas perspectivas teóricas. Desde a análise dos mecanismos linguístico-discursivos e enunciativos e práticas de letramento presentes na construção de gêneros como artigo científico, projeto de pesquisa, resumo, fichamento, ensaio e resenha, por exemplo, ao olhar sobre os aspectos pragmáticos, retóricos, composicionais, contextuais e situacionais que recobrem esses textos, esse simpósio oportuniza discutir as características das materialidades textuais produzidas na universidade, cotejando-as com a necessidade de refletir acerca do ensino e da produção de texto na academia. Dentre as perspectivas teóricas que podem ser contempladas no âmbito deste simpósio, pode-se destacar a Análise do Discurso francesa, a Análise Textual dos Discursos, a Argumentação, a Linguística Sistêmico-funcional, a Análise Crítica do Discurso, a Semântica Argumentativa, a Análise Dialógica do Discurso, a Linguística Aplicada, a Análise Crítica de Gêneros, a Semiolínguistica, o Interacionismo Sociodiscursivo, a Sociorretórica, dentre outras. Além disso, serão bem-vindas propostas de trabalho que discutam e problematizem a autoria no texto acadêmico-científico, a questão de práticas e condutas danosas como o plágio, além da produtividade científica, as relações de poder na academia, as especificidades da escrita acadêmico-científica, a construção, via discurso, da identidade profissional do sujeito pesquisador no âmbito da área de Letras/Linguística. As discussões desenvolvidas nessa proposta de simpósio objetivam, portanto, (re)discutir os diferentes matizes que compõem os gêneros e as práticas de linguagem desenvolvidas no âmbito da academia, levando em conta as particularidades disciplinares da comunidade discursiva acadêmica e da esfera de comunicação que a constitui. Lançar um olhar sobre essas práticas acadêmico-científicas, tão intrínsecas ao fazer didático-pedagógico dos que atuam nessa esfera, redunda em problematizar, de maneira constante, os discursos normativos e cristalizados, cujas verdades criam a ilusão de completude e de obviedade no âmbito das interações sociais na academia.

Palavras-chave: academia; gêneros discursivos; práticas de linguagem.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 12

Título do simpósio: Gramática do português na perspectiva funcional centrada no uso

Coordenadores: Edvaldo Balduino Bispo (UFRN) e Karen Sampaio Braga Alonso (UFRJ)

A investigação de fenômenos linguísticos baseada na língua em uso tem revelado motivações semânticas, cognitivas e interacionais neles implicadas. Pesquisadores assim orientados reconhecem que fatores cognitivos, culturais e comunicativos atuam na formatação da gramática de uma língua natural e, portanto, desempenham papel relevante na configuração estrutural de que se revestem variadas construções linguísticas. Isso equivale a dizer que há, de algum modo, uma motivação entre forma e função, de sorte que a codificação linguística de determinadas estruturas tem a ver com as funções que elas desempenham na interação discursiva e se relaciona diretamente aos propósitos que se quer alcançar (GIVÓN, 2001; FURTADO DA CUNHA et al, 2015). Acompanhando essa orientação, este simpósio focaliza estudos que investigam variados fenômenos linguísticos a partir de suas condições reais de uso, levando em consideração os fatores referidos nos arranjos morfossintáticos que assumem as construções linguísticas. A proposta aqui explicitada assenta-se na perspectiva da Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU), conforme caracterizada em Matelotta (2011), Furtado, Bispo e Silva (2013) e Oliveira e Rosário (2015). Essa abordagem teórica assume a concepção de que os usos linguísticos resultam de modelos convencionalizados com base na interface linguagem, cognição e ambiente sócio-histórico. A interrelação dessas três dimensões motiva a fixação de padrões gramaticais, via ritualização, a partir de ambientes interacionais específicos. Desse modo, o sistema linguístico tem uma natureza eminentemente dinâmica, já que surge da adaptação das habilidades cognitivas humanas a eventos de comunicação específicos e se desenvolve com base na repetição ou ritualização desses eventos. Seguindo o princípio básico de que a estrutura da língua emerge à medida que esta é usada, a aferição da frequência de ocorrência de um dado fenômeno linguístico é muito importante para a LFCU, já que assinala aquilo que o uso consagra como estratégia de comunicação em um determinado contexto (FURTADO DA CUNHA; BISPO, 2013). Importa descobrir como os aspectos interacionais se ritualizam em forma de construções gramaticais disponíveis para o usuário da língua. Metodologicamente, uma análise sob essa perspectiva conjuga fatores qualitativos e quantitativos, que possam evidenciar tendências de uso. O aspecto qualitativo diz respeito ao caráter descritivo e interpretativo da análise e ao enfoque indutivo baseado na observação das amostras coletadas. Já a dimensão quantitativa refere-se à natureza mensurável do material empírico tomado como amostra. Para tanto, quantificamos, em termos absolutos e percentuais, a recorrência dos fatores selecionados para a análise. Como objetivos deste simpósio, destacam-se: i) promover um espaço de discussão teórica e metodológica acerca de pesquisas sob o viés funcionalista; ii) proporcionar um intercâmbio acadêmico entre pesquisadores, alunos de pós-graduação e de graduação, sobretudo aqueles vinculados a atividades de iniciação científica; iii) divulgar resultados de estudos sobre fenômenos linguísticos fundamentados na abordagem funcional da língua(gem). Sendo assim caracterizado, a proposição de um simpósio dessa natureza justifica-se pela relevância que têm as investigações baseadas em situações efetivas de interação verbal, o que possibilita a explicação (e compreensão) de inúmeros fatos linguísticos e a identificação de fatores que concorrem para a configuração da gramática língua, em termos de emergência, regularização e mudança de padrões estruturais. Destaquem-se também possíveis desdobramentos das discussões proporcionadas em termos de contribuições para o ensino de língua portuguesa na Educação Básica.

Palavras-chave: linguística funcional centrada no uso; gramática de construções; descrição do português.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 13

Título do simpósio: Abordagem construcional do português: reflexões teóricas e analíticas

Coordenadores: José Romerito Silva (UFRN) e Patrícia Fabiane Amaral da Cunha Lacerda (UFJF)

A Gramática de Construções (GC) tem despontado no cenário dos estudos linguísticos, nas últimas décadas, como um dos mais vigorosos e produtivos modelos de abordagem da língua. Esse paradigma teórico, em suas distintas vertentes, ancora-se no princípio básico de que a língua consiste numa rede de construções hierarquizadas e interconectadas por diferentes elos de relações. Sob essa ótica, construção é entendida como o pareamento de forma e função, convencionalizado pelo uso linguístico nas diversas situações comunicativas de fala ou de escrita do cotidiano (GOLDBERG, 1995, 2003, 2006; CROFT, 2001; TRAUGOTT e TROUSDALE, 2013). Nesse sentido, construção pode ser um morfema, um item lexical, um sintagma, uma oração ou um período composto, cuja configuração sintático-semântica constitui-se como mais especificada (idiossincrática), parcialmente especificada ou totalmente não especificada (esquemática). Entre os pressupostos fundamentais da GC, destacam-se a ideia de que a língua emerge, regulariza-se e é aprendida com base na experiência dos indivíduos com o mundo biofísico e social; a rejeição à autonomia e à centralidade da sintaxe; a incorporação da semântica e da pragmática à análise linguística; a não distinção rígida entre léxico e gramática. No Brasil, mais particularmente, a GC vem sendo representada, em maior ou menor medida, por meio de diversos trabalhos de pesquisa, divulgados e em andamento, em alguns centros acadêmicos do país. Sendo assim, o simpósio aqui proposto justifica-se pelo fato de viabilizar a criação de um espaço de debates e compartilhamento de saberes sobre pesquisas de viés construcionista, concluídas ou em curso, acerca de fenômenos linguísticos do português, sobretudo, no campo da sintaxe e/ou da morfologia, em perspectiva sincrônica e/ou diacrônica. O interesse principal é possibilitar uma reflexão em torno desses fenômenos, com vistas a promover possíveis refinamentos teóricos, ajustes metodológicos e/ou adequações analíticas das questões em foco. O caráter amplo dessa proposta tem a vantagem de poder congregar diferentes perspectivas da GC, permitindo olhares diversificados e, ao mesmo tempo, com pontos em comum sobre os objetos de estudo focalizados. Assim, esperamos que o simpósio possa contribuir para uma compreensão mais abalizada tanto dos casos específicos em estudo quanto, de modo mais geral, da relação entre usos funcionais da língua e sua arquitetura formal e, consequentemente, do alcance teórico-metodológico da abordagem construcionista.

Palavras-chave: gramática de construções; língua portuguesa; análise linguística.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 14

Título do simpósio: Sintaxe do português em uso

Coordenadoras: Edila Vianna da Silva (UFRJ) e Nilza Barrozo Dias (UFF)

O simpósio Sintaxe do Português em Uso tem como objetivo discutir questões relativas aos estudos sintáticos do português em suas várias abordagens, especialmente no que se refere aos trabalhos sobre língua em uso, de vertente variacionista e funcionalista, possibilitando também a interface com outras propostas teóricas. Assim serão bem-vindas, entre outras, propostas da linha de investigação de base discursivo-textual, em que a sintaxe se articula com a semântica e a estilística; ou com o suporte da Sintaxe Experimental, que, partindo da Psicologia Experimental, permite estabelecer regularidades não observáveis por meio de estudos intuitivos informais; ou de apoio na Sintaxe Gerativa, ou na Semântica Cognitiva, ou ainda na aplicação de pesquisas sintáticas ao ensino, por exemplo. Pretende-se, com isso, propiciar a discussão sobre propostas de pesquisas na área da sintaxe que tenham como base a compreensão das relações entre linguagem e sociedade, isto é, que objetivem o estudo da língua em seu contexto social, mas que também reflitam, outrossim, sobre o grau de interação entre a Sintaxe e os outros níveis de análise da língua. Reconhecendo a interdisciplinaridade que perpassa a construção do conhecimento linguístico na atualidade, objetiva-se, em suma, contemplar um possível diálogo entre os estudos sintáticos do português e sua possível aplicabilidade ao ensino da língua.

Palavras-chave: sintaxe do português; língua em uso; funcionalismo e suas interfaces.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 15

Título do simpósio: Discursos de gênero, raça e sexualidade na contemporaneidade: efeitos identitários, culturais e políticos

Coordenadores: Dánie Marcelo de Jesus (UFMT) e Glenda Cristina Valim de Melo (UNIRIO)

Na contemporaneidade, as questões de gênero, raça e sexualidade têm sido discutidas e observadas em diversos contextos. Vemos, por exemplo, movimentos sociais e grupos que representam determinadas ‘minorias’ que lutam pela legitimidade de direitos, protestos favoráveis e contrários à discussão da ideologia de gênero, manifestações de pessoas transgêneras que requerem o uso do nome social, mulheres que se reúnem para questionar a cultura do estupro e a busca por maior igualdade etnicorraciais de pessoas negras e indígenas pela igualdade de direitos, especificamente em contexto brasileiro. Concomitantemente, nas últimas décadas, tornaram-se mais presente estudos sobre a relação gênero-linguagem-sexualidade-raça, revelando a complexidade social e política dessas temáticas. Além disso, considerando a perspectiva de Santos (2000), de que tudo passa pelo discurso, tais temáticas são também relevantes para os estudos linguísticos. Tais reflexões nos induzem a discussões relativas à imagem da feminilidade e da masculinidade em nossa sociedade e ao efeito dela em nossa interação cotidiana.  Essas imagens inevitavelmente se dão pelo discurso que define nossas relações com o outro e nossos posicionamentos sociais. Esses discursos são convencionalmente desenvolvidos dentro de um contexto sócio-histórico que ritualiza nossas ações performáticas. É por essa convenção que normas de identificação dos sujeitos são estabelecidas. São elas que geram ideologias hábeis para sustentar percepções do mundo essencialistas que impõem ideias e atitudes, muitas vezes imperceptíveis, contrárias aos indivíduos que desafiam o discurso hegemônico. São essas mesmas ideologias, inseridas em um momento histórico, que colaboram na construção dos papéis de masculinidade, feminilidade e raça. Com base na perspectiva de linguagem como performance, ou seja, de que agimos por meio da linguagem e fazemos coisas com a linguagem nos corpos (AUSTIN, [1962]1990;DERRIDA, [1972]1988 e BUTLER,1997); da perspectiva de que tanto gênero, como raça e sexualidade são construções, culturais, históricas, sociais, discursivas e/ou performativas (BUTLER, 2004;SEDCKWICH, [1990]2008 e MUNHÕZ, 1999) e de que esses discursos viajam pelo tempo se vão apropriando de novos sentidos (BLOMMAERT, 2010), este simpósio tem como objetivo reunir pesquisas preocupadas com a relação gênero-raça-sexualidade e discurso e seus efeitos identitários, políticos, culturais e também nos corpos, intensificando o debate na seara da Linguística. Visamos, ainda, promover e compartilhar conhecimentos teóricos, metodológicos e analíticos a respeito de diferentes abordagens sobre as temáticas mencionadas. Considerando que vivenciamos um debate importante na sociedade sobre gênero, raça e sexualidade, acreditamos que essa discussão é fundamental para compreendermos a construção das subjetividades e sua intercessão nos estudos de gênero-raça-sexualidade e de discurso no contexto brasileiro.

Palavras-chave: discurso; gênero; raça.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 16

Título do simpósio: Processos referenciais e a atividade de construção do texto

Coordenador: Heliud Luis Maia Moura (UFOPA)

A referenciação constitui um conjunto de estratégias por meio das quais o sujeito dá sentido ao mundo biossocial, não só reconstruindo-o por meio de suas interações, mas imprimindo novas significações ao que já está significado, desconstruindo, refutando, anulando ou acrescentando sentidos que se façam necessários a essas interações, permeadas sempre pela contradição, pelos paradoxos e mesmo pelos desacordos, inerentes às vivências humanas em suas várias dimensões e estágios. Portanto, levando em conta essa perspectiva, torna-se importante considerar que as estratégias discursivo-referenciais constituem recursos essenciais à execução da atividade verbal, na qual estão incluídos processos como repredicação de referentes, cataforização, recategorização, anaforização, introdução de novos referentes, uso de expressões hiperonímicas/meronímicas, emprego de elementos contextualizadores, emprego de expressões nominais definidas e indefinidas caracterizadoras de eventos e personagens, uso de proposições metaenunciativas, utilização de rótulos sumarizadores/encapsuladores, utilização de construções metadiscursivas, uso de formas reificadas de referenciação de referentes, emprego de marcadores temporais, utilização de marcadores dêitico-espaço-referenciais, dentre outros recursos, que entram na composição dos processos referenciadores e se manifestam como elementos veiculadores das estruturas básicas de sentido exigidas pelas práticas textuais. Tendo por base os pressupostos acima colocados, postulo acerca da relevância do estudo dos processos referenciais, o que justifica o presente simpósio, já que este pode contribuir para ampliação e aprofundamento de estudos relativos a esse tema, a partir dos quais também será possível fomentar novas pesquisas, nesse caso, direcionadas para as mais diferentes estratégias concernentes à temática em questão. Proponho, como bases teórico-metodológicas, os estudos realizados por Marcuschi (2007), Koch (2004, 2005), Mondada (2005), para os quais os processos referenciais não são originários ou remanescentes de elementos presentes na superfície dos textos; eles demandam, então, a execução de processos sociocognitivos e cognitivo-culturais contidos nas memórias estratégica e de longo prazo (memória histórica), por meio das quais a construção de objetos de discurso está na dependência da mobilização de recursos referenciais, concretizados quando das atividades sociointerativas de constituição dos mais variados textos. Sendo assim, as instruções de sentido guiadas pelos processos referenciais não estão restritas às relações cotextuais, mas, se pudermos ir mais longe, apenas indiciadas por estas últimas, pois são as relações contextuais e/ou sociodiscursivas que, na verdade, direcionam os sentidos carreados por tais processos. Por sua vez, levando em consideração a função dos contextos social e cultural para a construção de objetos de discurso e o fato de que, no sentido inverso, esses objetos constroem a realidade, cogita-se da importância da “manipulação” dos elementos referenciais para a estruturação dos contextos de referência, já que é por meio destes que as interações humanas passam a ter sentido dentro do universo biossocial. Mediante os conceitos já mobilizados, é possível afirmar que os processos referenciais são produtos de estruturas cognitivo-simbólicas ligadas a eventos genéticos ocorridos no tempo evolucionário, mas também a eventos históricos e a eventos pessoais ocorridos no tempo ontogenético. Tem-se, então, como objetivos gerais deste simpósio estudar/analisar os modos de configuração textual-discursiva e simbólico-cultural das atividades referenciais, compreendendo-as como múltiplas e heterogêneas, tendo em conta as várias instâncias sociocomunicativas em que estão imersas.

Palavras-chave: linguística textual; construção de texto; referenciação.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 17

Título do simpósio: Leitura, escrita e letramento

Coordenadora:Lúcia Inês Freire de Oliveira(UNINORTE)

Após a Segunda Guerra Mundial, eclodiram modificações em todas as áreas de conhecimento. A sociedade, ao superar o sistema econômico vigente, baseado em produtos manufaturados, evoluiu e expandiu-se, a partir de uma combinação de fatores, como o liberalismo econômico, a acumulação de capital e uma série de invenções tecnológicas, impactando o processo produtivo em nível econômico e social. Surge, então, a ‘sociedade da informação’ ou ‘sociedade do consumo’, que alguns preferem chamar de ‘pós-modernidade’, ‘sociedade pós-industrial’ ou ‘pós-modernista. Em decorrência disso, as demandas sociais exigiram novas formas de pensar e de agir, cobrando de seus integrantes níveis elevados de educação para suprir o mercado de trabalho. No mundo em que a informação e o conhecimento constituem fatores, decisivamente, estruturantes na vida social, a capacidade de usar a tecnologia da escrita e da leitura torna-se imprescindível, visto que o registro feito pelo homem das diferentes temporalidades e acontecimentos constituem os fios do tecido da história humana. Hoje, discute-se a fragilidade do conhecimento sobre leitura e escrita de escolares e de acadêmicos que comprometem a interação efetiva, impedindo-os de desenvolver atividades escolares, acadêmicas, pessoais ou profissionais. Por conseguinte, os processos de leitura e de escrita transformam-se à medida que há mudanças históricas, sociais, econômicas e culturais em uma sociedade. No Brasil, a partir da década de 80 do século XX, inúmeras discussões e reflexões metodológicas entre linguistas e educadores surgiram acerca do termo letramento, uma inquietação decorrente do fato de o país aparecer entre os países menos eficientes sobre a questão de leitura e de escrita, precisamente na compreensão textual. Parece que há insuficiência reconhecida quanto ao conceito de alfabetização, demonstrando que se está, efetivamente, perante uma nova necessidade da realidade social em que já não basta saber ler e escrever; é preciso fazer realmente uso destas habilidades para responder às novas e progressivas solicitações e exigências que a sociedade continuamente impõe. Nesse sentido, o tema deste simpósio busca discutir sobre a leitura e a escrita como fatores determinantes para elevar o grau de letramento, necessário para que se tenha um indivíduo com nível pleno, segundo o Indicador de Alfabetismo Nacional – INAF. Este trabalho contribuirá na consolidação das práticas escolares do processo de ensino e de aprendizagem, evidenciando a importância de saber ler e escrever. Em termos sociais amplos, o letramento é apontado como sendo produto de uma prática social simbólica, marcadamente centrada no signo da escrita. Constata-se que as instituições políticas, gerenciadoras de letramento, onde a leitura e a escrita são apresentadas, impõem que os indivíduos não só decodifiquem ou transcrevam letras, mas, diante do aprendido, modifiquem os conteúdos, ressignifiquem as maneiras de acumular o saber. Esse processo colabora, consideravelmente, com a formação do indivíduo. Caso isso não ocorra, o indivíduo passará por inúmeras dificuldades apontadas como desinteresse, falta de motivação e instrução. Este trabalho tem a contribuição de Beaugrande & Dressler (1991), Kleiman (2012), Kock (2002), Luria (1976), Marcuschi (2010), Goody & Watt (2006), Ong (2002),Rojo (2015),Tannen (1982), Tfouni (2010) e Van Dijk (2002).

Palavras-chave: leitura; escrita; letramento.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 18

Título do simpósio: Formação docente e práxis com o uso de TICs: estudos que contribuem para o desenvolvimento do letramento na era da informação

Coordenadoras: Cristina Vergnano-Junger (UERJ) e Greice da Silva Castela (UNIOESTE)

Vivemos, hoje, numa sociedade da informação na qual dados e conhecimentos são transmitidos a grande velocidade, em diferentes línguas, rompendo barreiras espaciais, num volume e forma nunca antes experimentados. Grande parte do que transita pelas redes sociais, blogs, fóruns, e-mails, jornais e revistas digitais envolve a linguagem verbal escrita. Lê-se e escreve-se muito, mesmo que se possa criticar a maneira como isso é realizado e denunciar uma crise na leitura. A escola é acusada de não ser mais o centro de formação que deveria/poderia ser nessa nova era. No entanto, nem tudo o que circula e é acessível pela internet pode ser considerado confiável, correto ou adequado a qualquer uso ou objetivo. Parece-nos, então, que este passa a constituir o papel da nova escola: ser um centro que desenvolve o letramento, a criticidade na leitura, na escrita e no acesso, seleção e avaliação dos conteúdos que temos ao nosso dispor. Neste simpósio, temos como objetivo discutir sobre o letramento do professor nesse contexto informacional e digital, para que ele seja multiplicador de indivíduos críticos. Também visamos socializar experiências, frutos de pesquisa-ação, que, por meio do uso das tecnologias da informação e comunicação (TICs), desenvolvem aprendizagens em diferentes níveis, buscando a mesma criticidade. Nosso foco, nessas propostas, recai sobreas línguas portuguesa e espanhola, inclusive para difundir os estudos nesses campos, menos explorados e/ou visíveis do que nas pesquisas em língua inglesa, por exemplo. Defendemos que a questão da escola, do professor e do letramento na era da informação são temas de grande relevância no cenário investigativo e educacional de nosso país. A divulgação e a discussão de pesquisas envolvendo tais temáticas, em especial aquelas que devolvem à sociedade produtos do seu fazer científico, precisam integrar-se a nossas ações enquanto pesquisadores na área da linguística. E, como ressaltamos anteriormente, os trabalhos sobre esses temas no âmbito das línguas espanhola e portuguesa (principalmente na primeira) devem ser amplamente socializados com a comunidade científica e docente, para multiplicar ações educativas e de letramento. Vinculamos o simpósio à subárea da linguística aplicada, com orientação para a questão do ensino-aprendizagem de língua portuguesa e espanhola, o sociocognitivismo e os estudos sobre letramento. Em termos metodológicos, propomos um recorte voltado para estudos empíricos (documentais, observacionais ou de pesquisas-ação) prioritariamente qualitativos. Seu foco deve envolver as relações entre TICs e letramento, formação docente e/ou aplicação em sala de aula de línguas portuguesa ou espanhola. Esperamos abrir um espaço de interlocução para pesquisadores e professores que se interessam por pesquisas que consideram as TIC não como um fim em si mesmas, mas como ferramentas que podem contribuir, dependendo de como o professor as utilize, para os processos de ensino e aprendizagem de espanhol e de português e para o letramento crítico, o multiletramento e a formação cidadã dos alunos, bem como para discussão metodológica de uso das TICs em eventos de letramento na práxis escolar tanto na Educação Básica como na Educação Superior.

Palavras-chave: letramento; tecnologia da informação e comunicação; formação e prática docente.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 19

Título do simpósio: Enquadres cognitivos na linguagem em uso: perspectivas pragmáticas e sociocognitivas da conceptualização

Coordenadores: Edwiges Morato (UNICAMP) e Heronides Moura (UFSC)

A proposta deste simpósio é reunir estudos que, sob uma perspectiva de base pragmática, se propõem à investigação da cognição humana no contexto das práticas discursivas as mais diversas. Partimos do pressuposto segundo o qual as práticas linguísticas podem ser tomadas como um locus de grande importância para a observação de uma relação mutuamente constitutiva entre conceptualização e usos da linguagem. Se pensarmos que o uso social da linguagem requer, entre outras coisas, cooperação e perspectivação conceitual, a pergunta sobre o que torna possível a representação das experiências psicossociais, a “sintonia referencial” e mesmo a captura do estado mental do outro torna-se fundamental para a compreensão da coesividade comunicacional. O empreendimento analítico de fenômenos como metáforas, frames, implicaturas, referenciação ou contextualização na linguagem em uso indica que estes funcionam como “pistas” para entendermos como se constitui a conceptualização nas mais variadas práticas discursivas. A análise de tais fenômenos em contexto de uso salienta a presença de nossas experiências e conhecimentos organizados na linguagem e indica como esta, de sua parte, é capaz de atuar sobre eles. Fenômenos linguístico-cognitivos como os mencionados acima, cumpre salientar, têm exigido a formulação de teorias cognitivas dinâmicas e pragmaticamente investidas, o que coloca em estreita relação regularidades linguísticas, fatores pragmáticos e estruturas conceptuais. Assim, este simpósio está consagrado aos estudosque colocam em relevo construtos teórico-metodológicos que procuram superar dicotomias entre o linguístico e o cognitivo, a interação e a conceptualização,o semântico e o pragmático. Uma característica comum às teorizações de base pragmática e sociocognitiva é a não redução de fenômenos atinentes ao que podemos entender como “enquadres cognitivos” (metáfora, frame, contextualização, esquematização, etc.) ao domínio conceptual ou à significação linguística. Antes, elas se nutrem de uma dimensão multimodal da conceptualização que lhes confere flexibilidade sociocognitiva, pragmática e linguística. Tendo em vista o exposto, nossa expectativa é discutir, neste simpósio, aspectos teóricos e empíricos de estudos afiliados a persuasões distintas, porém enfeixadas por uma perspectiva que, de forma abrangente, chamamos de pragmática, a fim de ressaltar a relação entre fatores internos e externos na construção do sentido, fundamental para a análise de diferentes aspectos da conceptualização - processo simbólico que envolve a um só tempo regularidades linguísticas e processos (socio)cognitivos.

Palavras-chave: enquadres cognitivos; linguagem em uso; pragmática.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 20

Título do simpósio: Educação linguística e formação docente em língua espanhola: pesquisas e reflexões

Coordenadoras: Elzimar Goettenauer de Marins Costa (UFMG) e Luciana Maria Almeida de Freitas (UFF)

Este simpósio tem como propósito reunir trabalhos sobre educação linguística e sobre formação docente em língua espanhola no Brasil. Tais trabalhos podem ser resultado de pesquisas concluídas ou em desenvolvimento e também reflexões construídas por pesquisadores em decorrência de um conjunto de estudos e de experiências com a formação e com a docência em língua espanhola. Embora presente na Educação Básica brasileira, de forma intermitente, desde 1942, com a publicação da Lei Orgânica do Ensino Secundário n. 4.244, e no ensino superior, desde 1939, com o Decreto-Lei n. 1.190, as pesquisas envolvendo a língua espanhola e seu ensino se iniciaram no Brasil apenas nos anos 90 do século XX (SOTO, 2004). Assim sendo, o recente interesse da comunidade acadêmica por pesquisas que se relacionam com o ensino dessa língua pode ser observado, inclusive, na ausência de simpósios/grupos de trabalho dirigidos à educação linguística e à formação docente em espanhol nos últimos congressos da Abralin e em outros eventos que não sejam especificamente hispanistas. Indiscutivelmente, a língua é, e certamente continuará sendo, fundamental para a vida em sociedade, por isso, a educação linguística se torna importante para que os indivíduos possam interagir de forma apropriada nos grupos e comunidades nos quais atuam. Entende-se por educação linguística, “o conjunto de atividades de ensino/aprendizagem, formais ou informais, que levem uma pessoa a conhecer o maior número de recursos da sua língua [ou de uma língua adicional] e ser capaz de usar tais recursos de maneira adequada para produzir textos a serem usados em situações específicas de interação comunicativa para produzir efeito(s) de sentido pretendido(s)” (TRAVAGLIA, 2011). Observa-se, então, que esse conceito pode suscitar a reflexão sobre vários aspectos relacionados ao ensino/aprendizagem de espanhol, tanto de caráter mais geral, como formação docente, produção de livros didáticos e variação linguística, por exemplo, quanto de caráter mais específico, como a compreensão e a produção escrita e oral e a abordagem de elementos linguísticos. Consideram-se dois pressupostos fundamentais: o texto é o objeto de ensino de línguas na Educação Básica; a aula é um espaço no qual a aprendizagem da língua vai além da sistematização linguística e do desenvolvimento de habilidades de decodificação e codificação. Tendo em vista tais pressupostos, o viés teórico-metodológico que se pretende privilegiar neste simpósio é o de natureza discursiva, em sentido mais amplo, ou seja, buscando abarcar diferentes perspectivas, como as diversas linhas de análise do discurso, a semiolinguística, o socionteracionismo e as vertentes bakhtinianas. Os objetivos gerais deste simpósio são: apresentar propostas de pesquisa e reflexões sobre a educação linguística e sobre a formação docente em língua espanhola e seus diversos desdobramentos. Destacam-se como pontos fundamentais desses processos: o reconhecimento das práticas de linguagem como práticas sociais, marcadas por circunstâncias históricas e culturais; o entendimento de que a língua se organiza em gêneros discursivos (BAKHTIN, 2003; VOLOSHINOV, 2009); a importância do engajamento discursivo dos estudantes em diferentes contextos e, consequentemente, da ampliação de seus conhecimentos para a construção de textos apropriados, com diferentes propósitos, segundo a diversidade das situações de interlocução.

Palavras-chave: educação linguística; formação docente; língua espanhola.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 21

Título do simpósio: Linguística cognitiva e neurociências

Coordenadores: Jan Edson Rodrigues Leite (UFPB) e Rosângela Gabriel (UNISC)

Considerando os avanços interdisciplinares entre a Linguística Cognitiva (LC) e as demais ciências ocupadas com a investigação das relações entre linguagem, cérebro e cognição, este simpósio tem como objetivo reunir trabalhos que discutam as aplicações de algumas das teorias delimitadas pela LC à compreensão de fenômenos neurocognitivos, ou que utilizem métodos e técnicas de pesquisa associados às Neurociências para validar, empiricamente, as abordagens teóricas da relação entre linguagem e cognição. A Linguística Cognitiva (LC) tem se consolidado nas últimas décadas como um framework teórico robusto e adequado para propor modelos explicativos não apenas para os fenômenos observáveis na linguagem (em suas diferentes modalidades), mas para aqueles que integram o sistema conceptual responsável pelo pensamento, pelo raciocínio, pela percepção, pela tomada de decisão, pela categorização, pela compreensão etc. Em que pese a extensão desse framework, dada a dimensão e a variedade das disciplinas que integram a LC, a preocupação central das pesquisas tem sido a de analisar a linguagem em uso e deslocar o estudo da significação da periferia (em outras abordagens) para o núcleo da investigação. No Brasil, a partir da produção científica na área, é possível observar a grande diversidade de temas que aproximam cognição e linguagemdos trabalhos em Neurociências. Neste simpósio, nosso interesse é ter uma amostra relevante de pesquisas que propõem essa interface, e que se embasam no framework da LC do ponto de vista teórico e que, metodologicamente, fazem uso de procedimentos empíricos (descritivos, experimentais) ou de técnicas da neurociência.Dessa forma, propomos que sejam submetidos trabalhos que demonstrem as conexões entre as diversas abordagens sobre o fenômeno linguístico (produção, compreensão, aquisição, processamento, etc.) dentro do arcabouço específico da linguistica cognitiva (a exemplo das teorias de metáfora, de gramática, de conceptualização, de categorização, etc.) e as abordagens neurocognitivas (teóricas ou metodológicas). Igualmente, encorajamos a apresentação de estudos de Semântica, que visem à compreensão geral do funcionamento de sistemas cognitivos relacionados à linguagem e ao pensamento (modelos cognitivos, esquemas de imagem, espaços mentais, frames etc). Por fim, os temas da interface entre LC, neurociências e outras disciplinas são bem-vindos quando propuserem a análise dos fenômenos de linguagem sob uma integração teórico-metodológica que revele as virtudes e vicissitudes das abordagens neurocognitivas. Assim, fenômenos como processamento da leitura, perda da linguagem, sistemas conceptuais e memória, diferenças entre produção e compreensão de linguagem normal x patológica etc. estão entre os tópicos de pesquisa relevantes para discussão neste simpósio.

Palavras-chave: cognição; linguagem; neurociências.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 22

Título do simpósio: Abordagens construcionistas à aquisição de segundas línguas/línguas estrangeiras

Coordenadores: Paulo Pinheiro Correa (UFF) e Roberto de Freitas Junior (UFRJ)

As abordagens construcionistas para a linguagem englobam diferentes perspectivas teóricas e autores, entre eles, Bybee (2010), Goldberg (2006), O’Grady (2005), Tomasello (2003) e N. Ellis (2002). Este simpósio tem, assim, por objetivo, reunir pesquisadores que se dedicam a estudos sobre a aquisição de segundas línguas sob o ponto de vista dessas abordagens. Temos por finalidade discutir o lugar de noções caras à perspectiva construcionista, tais como frequência, saliência, insumo, analogia e categorização, entre outras, para o entendimento sobre o conhecimento linguístico do falante de uma segunda língua. Essa abordagem se caracteriza por considerar que a aquisição da linguagem é resultado, em última instância, da procedimentalização de construções abstratas através da apreensão de regras a partir do uso, com base em mecanismos estatísticos de aprendizagem. N. Ellis (2001:6) define o conceito de construção como “padrões recorrentes de elementos linguísticos que servem a funções linguísticas específicas”. Estas variam em complexidade, podendo constituir-se de morfemas a padrões sintáticos, passando por palavras, expressões fixas e construções produtivas em certa língua. As abordagens construcionistas se baseiam em um conjunto de premissas em comum que as diferenciam da abordagem inatista sobre a aquisição da linguagem. Goldberg (2013) relaciona os seguintes princípios que caracterizam, de maneira geral, o construcionismo: a) as unidades básicas de uma língua são as construções gramaticais; b) a produção linguística de um indivíduo é um reflexo do seu conhecimento, não estando intermediada por uma representação apriorística; c) as construções estabelecem relações entre si, formando uma rede construcional; e d) o uso influencia o design do saber linguístico, por sua vez, constantemente desenvolvido. A aquisição de L2 é um campo não plenamente explorado dentro deste arcabouço teórico, ainda que alguns dos pesquisadores citados já tenham se dedicado ao assunto. Entre os trabalhos na área de aquisição de L2 já realizados sobre o assunto, destacam-se os de N. Ellis (2002, 2003, 2013); O’Grady (2003); Bybee (2008); e N. Ellis e Larsen-Freeman (2009). N. Ellis (2006, p. 109) lembra que o estado inicial da aquisição de uma L2, longe de ser uma tábula rasa, é uma tábula repleta. Isso significa que o estudo de aquisição de uma L2 deve considerar o papel desempenhado pela L1 do aprendiz e de que maneira, dentre outros possíveis fatores, esta influencia ou interage com os dados da língua nova para constituir o saber linguístico de um aprendiz. Dessa forma, este simpósio visa, especificamente, à discussão sobre questões relacionadas à L2, acolhendo trabalhos que investiguem a especificidade da aquisição de segundas línguas nessa perspectiva, considerando, por exemplo: a relevância do insumo na sala de aula; o papel da categorização e da prototipicidade nos dados referentes ao conhecimento linguístico do aprendiz; a avaliação, como reflexo de um estado cognitivo momentâneo; o papel das frequências typee token no processo de aquisição; as influências desses fatores na adequação metodológica do professor em contextos formais de instrução linguística, dentre outros aspectos que podem contribuir para a pesquisa nessa área de atuação.

Palavras-chave: gramática das construções; aquisição de segundas línguas; linguística centrada no uso.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 23

Título do simpósio: A aspectualização em Semiótica

Coordenadores: Geraldo Vicente Martins (UFMS) e Jean Cristtus Portela (Unesp/CNPq)

Sempre em busca de avançar no campo dos estudos sobre a significação das línguas naturais e das linguagens em geral, e sem desconsiderar sua filiação aos estudos linguísticos, a semiótica do discurso vem reavaliando, nos últimos anos, a importância da noção de aspecto. Se a aspectualização, tradicionalmente, era vista como pertencente ao componente temporal dos enunciados, sobretudo em sua relação com os verbos, e entendida como um ponto de vista sobre a ação concebida como processo, a semiótica ampliou seu domínio de atuação, situando-a no âmbito da discursivização e passando a considerá-la também no que diz respeito às categorias de pessoa e espaço. A aspectualização, assim concebida, remete-nos ao problema da conversão de conteúdos semânticos e narrativos em grandezas discursivas submetidas à apreciação de um sujeito-observador e, portanto, a uma problemática essencialmente cognitiva e metaenunciativa, em cujo cerne opera uma práxis enunciativa encarregada de conferir mais ou menos densidade e mais ou menos presença aos traços processuais que configuram o sistema aspectual. A economia ou dinâmica aspectual, portanto, serviria a distribuir, regular e modular a significação no discurso, seja do ponto de vista do enunciador, seja do ponto de vista do enunciatário, cujas competências são, ao mesmo tempo, pressupostas e construídas pela configuração aspectual. Não é à toa que a aspectualização tem um papel fundamental nos estudos de práticas e estratégias semióticas-objeto em que as relações entre ação e discursivização solicitam resoluções de tipo actorial, espacial e temporal que pressupõem forçosamente um tratamento aspectual, na medida em que solicitam a presença de um sujeito-observador. Nessa perspectiva, paralelamente aos desenvolvimentos sobre a aspectualização do tempo e aproveitando-se das contribuições advindas dos estudos tensivos, nos quais se estudam os aumentos e as diminuições do afeto segundo os eixos da intensidade e da extensidade, diversas pesquisas têm se orientado com vistas a dar conta dos modos de o sujeito perceber e apreender aspectualmente as relações concernentes aos atores, espaços e tempos construídos no e pelo discurso. Diante da amplitude de questões que despontam a partir da abordagem semiótica da noção de aspecto e considerando a diversidade de elaborações teóricas em consonância com a exigência analítica posta pelos objetos específicos visados, este simpósio pretende instigar os estudiosos do discurso a revisarem suas concepções a respeito da aspectualização, a fim de que se possa aprofundar o conhecimento da problemática inerente ao aspecto, bem como de sua contribuição para os desdobramentos presentes e futuros da semiótica do discurso.

Palavras-chave: aspectualização; semiótica discursiva; práxis enunciativa.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 24

Título do simpósio: Humanidades digitais: limites e possibilidades do digital nas fontes documentais de língua

Coordenadores: Jorge Viana Santos (UESB) e Patrício Nunes Barreiros (UEFS)

Com o advento da tecnologia digital, as Humanidades contam com novos suportes e ferramentas para a exploração de fontes documentais. As pesquisas em Humanidades na era digital podem ser agrupadas no campo hoje denominado Humanidades Digitais, aqui compreendido como o conjunto das ciências humanas e sociais, artes e letras, que mobilizam instrumentos e perspectivas singulares do mundo digital (DACOS, 2010). Seguindo Dacos (2010), para nós, as humanidades digitais não negam o passado; pelo contrário, apoiam-se no conjunto dos paradigmas e conhecimentos próprios dessas disciplinas aliados às novas possibilidades do suporte digital e às ciências da computação como ciências meio. Assim, com o surgimento de novos suportes para as fontes documentais de língua (falada ou escrita), a exemplo do digital, surge uma nova forma de fazer ciência da linguagem derivada de uma nova forma de fazer humanidades. As fontes documentais que fundamentaram os estudos linguísticos em diferentes momentos da história possuem, conforme Namiuti e Santos (2016), uma materialidade restrita, ligada ao tempo e ao espaço, portanto, de acesso limitado, a exemplo dos textos lavrados em papel (China, por volta do século I d.C.). Tais fontes documentais embasaram e têm embasado estudos nas áreas das humanidades a exemplo da Filologia e da Linguística (NAMIUTI; SANTOS, 2016). No final do século XIX, com a criação da primeira tecnologia de gravação, por Thomas Edison, abre-se uma nova possibilidade de registrar a língua: registrar a língua oral diretamente na sua forma sonora, permitindo aos futuros linguistas ir além das anotações e descrições escritas sobre uma língua na modalidade falada. Assim como as fontes documentais da escrita, a materialidade das fontes documentais do áudio no século XIX e início do século XX é restrita.Com o suporte digital, a complexidade em relação ao acesso muda, pois o estudioso interessado em consultar as fontes documentais da língua nas modalidades falada e escrita não necessita estar no mesmo espaço físico da gravação acústica ou elétrica ou do documento em papel, por conta da facilidade de reprodução e/ou do acesso remoto. Em relação à forma, as fontes digitais são apresentações codificadas computacionalmente, e, por isso, mutáveis, possibilitando meios e técnicas que garantem o resgate das informações. Como afirma Unsworth (2004), a computação nas humanidades tem sido utilizada para representar as fontes materiais e para construir ferramentas que nos ajudam a criar suas representações, bem como a manipulá-las e analisá-las. O presente simpósio tem por objetivo agregar tanto trabalhos que apresentem resultados de pesquisa sobre um fenômeno linguístico específico, obtidos com auxilio de ferramentas tecnológicas, quanto trabalhos que discutam os desafios tecnológicos da construção de corpora eletrônicos de língua e/ou apresentem resultados sobre processamento de corpora de língua, com multiplicação de usos.

Palavras-chave: linguística; filologia; humanidades digitais.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 25

Título do simpósio: Diferentes abordagens em sintaxe

Coordenadores: Eduardo Kenedy (UFF) e Gabriel de Ávila Othero (UFRGS)

As línguas naturais estão entre os fenômenos mais complexos conhecidos pela ciência, tanto do ponto de vista neuropsicológico quanto sociocultural. A linguagem humana, na forma de uma língua específica, como o português, é o fenômeno biossocial responsável pela organização mental da vida interna de um indivíduo e pela cooperação comunicativa que dá à luz as sociedades organizadas. Sem a posse da Faculdade da Linguagem, a espécie humana dificilmente teria alcançado sucesso evolucionário a ponto de espalhar-se para todas as partes do mundo e então criar tecnologias, inventar a agricultura, codificar sua fala em sistemas de escrita e gerir comunidades cada vez mais populosas e complexas. Boa parte da complexidade da linguagem deve-se especialmente a um dos componentes de sua estrutura: a sintaxe. É o componente sintático existente em todas as línguas que torna possível a combinação de itens lexicais finitos em um número infinito de frases, as quais, por consequência, dão origem aos ilimitados textos e discursos humanos. A exemplo do que acontece com a linguagem em si mesma, a sintaxe das línguas naturais é também um fenômeno extremamente complexo. Não é por outra razão que existem tantas abordagens diferentes no empreendimento cientifico de explicar o que é e como funciona a sintaxe de uma dada língua. Tais abordagens, muitas vezes, são complementares e correspondem à conhecida “divisão do trabalho” natural ao fazer científico. Por exemplo, a sintaxe é parte da estrutura das línguas e, assim, compreende um conjunto de formas e arranjos formais, mas é claro que essas formas querem dizer alguma coisa sobre o mundo e, dessa maneira, cumprem alguma função comunicativa. A dicotomia entre formalistas e funcionalistas é um dos casos mais antigos de divisão de tarefas entre sintaticistas. No entanto, algumas vezes, as múltiplas abordagens no estudo da sintaxe podem representar lutas epistemológicas mortais. Algumas “sintaxes” defendem, por exemplo, que o componente sintático seja o epicentro – ou o coração – da gramática de qualquer língua, ao passo que outras “sintaxes” sequer reconhecem a existência de uma “sintaxe” como componente diferente do léxico. O objetivo central deste simpósio é reunir trabalhos de sintaticistas brasileiros que estudam fenômenos sintáticos do português e de outras línguas naturais a partir de diferentes abordagens. Esperamos reunir trabalhos em Sintaxe Gerativa chomskyana (modelos P&P e Minimalista, por exemplo) e outros modelos formais (HPSG, TO, SimplerSyntax, LFG), além de contar com trabalhos de sintaticistas de correntes teóricas de base funcionalista (givoniana, hallidiana), variacionista (laboviana) ou aplicada à computação (PSGs, TreeAdjoiningGrammar). A ideia básica é propiciar momentos de discussão e construção do conhecimento sobre fenômenos sintáticos das línguas naturais. Esperamos contar com cerca de 5 a 15 trabalhos.

Palavras-chave: sintaxe das línguas naturais; abordagens formais em sintaxe; abordagens funcionais em sintaxe.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 26

Título do simpósio: Contribuições da semântica e pragmática formais para a descrição e a análise do português brasileiro e de outras línguas naturais sub-representadas

Coordenadores: Ana Paula Quadros Gomes (UFRJ) e Luisandro Mendes de Souza (UFRGS)

A semântica e a pragmática formais, como qualquer ciência empírica e experimental, são um empreendimento coletivo de caráter preditivo, isto é, suas hipóteses podem ser falseadas. Buscando explicar como se dá a atribuição de significados às expressões das línguas humanas, essa semântica e essa pragmática se valem de linguagens formais para oferecer um modelo rigoroso e com tal explicitude que promova a compreensão pública de sua proposta e permita a sua refutação (cf. BORGES NETO; MÜLLER; PIRES DE OLIVEIRA, 2012).No Brasil, a pesquisa formal é bastante recente (cf. BORGES NETO; MÜLLER; PIRES DE OLIVEIRA, 2012). Não havia muitos pesquisadores nessa linha da década de 70, quando surgiram os primeiros artigos em semântica de orientação formal. Desde 1970, a semântica formal nacional ganhou mais impulso, com o crescimento do intercâmbio com pesquisadores de renome internacional, como Angelika Kratzer, Barbara Partee, Gregory Carlson, Genaro Chierchia, Susan Rothstein e muitos outros. A área vem se consolidando dentro da linguística brasileira, acompanhando o florescimento internacional da semântica formal. A semântica formal também começa a se inserir internacionalmente, por meio de convênios internacionais e da presença de expoentes nacionais em eventos científicos externos ao país.  Entretanto, ainda é pequeno o número de pesquisadores no Brasil. A difusão da semântica formal é ainda muito restrita. Percebe-se, nos meios acadêmicos, um acentuado preconceito contra a Semântica Formal, em meio a uma resistência generalizada contra os formalistas de qualquer tendência. É possível que a formação tradicionalmente oferecida por nossos cursos de Letras, hoje, alimente uma compreensão equivocada, a de que estudar cientificamente a linguagem humana é algo redutor.  Esse quadro inspira medidas para uma maior difusão da área e para um maior intercâmbio entre os formalistas nacionais de quatro gerações, que, embora sejam pesquisadores atuantes e estejam formando novos investigadores na área, carecem de oportunidades para debater seus achados.  Este simpósio visa difundir os produtos dessa pesquisa e incentivar o interesse das novas gerações pela semântica e pragmática formais, sublinhando as aplicações das teorias dessa vertente na descrição e análise de nossa própria língua materna, o Português do Brasil, e de outras línguas naturais ainda insuficientemente descritas e analisadas nesses níveis de descrição linguística, tais como as línguas nativas brasileiras. O simpósio se propõe a reforçar os elos que unem esses pesquisadores em torno de um interesse científico comum, promovendo uma saudável crítica acadêmica. O trabalho científico que passa pelo crivo dos pares ganha mais solidez e vulto. Acreditamos que cada um dos pesquisadores que apresentará os resultados das suas pesquisas e a produção científica no Brasil só tenham a ganhar.

Palavras-chave: semântica formal; pragmática formal; descrição e análise semântica e/ou pragmática de línguas insuficientemente descritas.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 27

Título do simpósio: As ciências do léxico e as línguas indígenas brasileiras

Coordenadoras: Cristina Martins Fargetti (UNESP-Araraquara) e Denise Silva (FAIND/UFGD)

As línguas indígenas brasileiras estão correndo risco de perda e extinção, e esta situação de perigo evidencia a necessidade urgente de estudos sistematizados visando a sua descrição e documentação, para seu melhor conhecimento. As pesquisas que envolvem o léxico de tais línguas têm contribuído para a descrição dos sistemas linguísticos, bem como para a elaboração de dicionários; tais estudos, geralmente, vão ao encontro dos anseios das comunidades indígenas, preocupadas com perdas por vezes iminentes e com a valorização de suas línguas. O estudo do léxico de uma língua indígena contribui para uma maior compreensão da especificidade da cultura e do contexto histórico e social do povo que a fala, o que se observa em distintas formas de nomear e categorizar o mundo que o cerca. Provavelmente, os estudos do léxico são os que mais estreitamente relacionam a língua à cultura de um povo e esta relação, longe de estar bem compreendida, suscita sempre as mais acaloradas discussões.  Assim, ao elaborar um estudo lexicológico de um campo ontológico, o pesquisador é confrontado com questões, por exemplo, sobre a delimitação dos saberes, sobre a noção de ciência e, inevitavelmente, se questionará sobre a distinção entre lexicologia e terminologia. Se esta distinção, por vezes, não é clara para culturas em que a noção de ciência (Ciência & Tecnologia – C&T) é consagrada, o que podemos dizer em casos em que esta noção é justamente questionada: há uma Ciência ou Ciências? Os estudos lexicológicos e terminológicos desembocam, por vezes, em aplicações lexicográficas e terminográficas, ou seja, em dicionários. Como eles podem ser em línguas indígenas?  As pesquisas realizadas contribuem para o avanço dos estudos linguísticos e trazem, obviamente, aplicações possíveis em contexto escolar. Assim, também para os dicionários de línguas indígenas, há questões sobre lexicografia pedagógica e elas são tão complexas quanto o são para os não indígenas: a quem se destinam as obras? Podem ser compreendidas por esse público ou cumprem apenas uma função identitária (dicionário visto como símbolo de uma língua e de um povo)? Nesse sentido, esse simpósio propõe um importante espaço para o diálogo sobre os trabalhos realizados e em andamento que envolvam o léxico dessas línguas, objetivando uma discussão sobre o tema, ainda recente, e suas contribuições para a área. Os enfoques teóricos podem variar, como aponta Welker (2004) , por exemplo, trazendo resultados distintos que ilustram posicionamentos adotados sobre a noção de língua, cultura, dicionário etc. Obras que levem em conta o uso, inclusive, como Borba (2004) descreve o DUP, são raras para línguas com larga tradição de estudo, e para as com menos estudos elas são praticamente inexistentes. A montagem de corpora, de bancos de dados, é outro ponto de discussão: como elaborá-los sem a utilização de enorme quantidade de textos impressos? Se estes não existem para línguas indígenas, como deve ser o trabalho do lexicógrafo/terminógrafo? Enfim, inúmeras questões podem ser levantadas para o caso do estudo destas línguas e fazem repensar, com certeza, postulados teóricos e abordagens metodológicas.

Palavras-chave: línguas indígenas; lexicologia; lexicografia.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 28

Título do simpósio: Perception, attitudes and ideologies: the study of social meaning of variation

Coordenadores: Kathryn Campbell-Kibler (The Ohio State University) e Ronald Beline Mendes (USP)

Alongside important work on variation in linguistic production, there have been numerous traditions examining speakers’ feelings, beliefs and reactions to that variation. In recent years, variation studies in particular have seen a blossoming of this interest, with the development of the third wave of variation (ECKERT, 2012), a framework which centers sociolinguistic meaning or indexical meaning. In this model, language variation can be tied through indexical links to social structures such as social categories, interactional roles, speech activities and more. The focus on indexical meaning has brought sociolinguistic perception studies, particularly speaker evaluation studies (GILES & BILLINGS, 2004), to the forefront in variation. The current focus on sociolinguistic perception in variation draws crucially on a number of well established traditions, including language attitudes (CARGILE & BRADAC, 2001), language ideologies (SCHIEFFLIN, WOOLARD & KROSKRITY, 1998) and folk linguistics (NIEDZIELSKI & PRESTON, 2000). The general goal of this symposium is to provide a space in which to discuss different types of work focusing on the social meaning of linguistic variation, with a special interest in those that deal with perception, attitudes and ideologies. Such discussion may lead to a comprehensive understanding of the different ways in which the social meaning of variation has been studied lately and of the challenges yet to be faced.

Palavras-chave: sociolinguistic perception; language attitudes; language ideologies.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 29

Título do simpósio: Práticas escritas na pesquisa e no ensino

Coordenadores: Cristiane Carneiro Capristano(UEM) e Manoel Luiz Gonçalves Corrêa (USP)

As possibilidades de pesquisa e atuação abertas a partir dos chamados Novos Estudos do Letramento têm viabilizado um amplo e diversificado debate sobre o funcionamento do modo de enunciação escrito – funcionamento que envolve a singular materialidade desse modo de enunciação, sua condição como prática sócio-histórica, sua constituição heterogênea, sua inalienável relação com o sujeito escrevente, sua efetivação em gêneros discursivos. Além dessa diversificação do debate no campo dos letramentos tradicionais, muito se tem discutido também sobre a especificidade do chamado letramento digital, o qual não se reduz a um simples tratamento da escrita nesse novo ambiente. As consequências de todos esses debates não são poucas para o ensino-aprendizagem da escrita. No contexto brasileiro, um grande conjunto de pesquisas tem se voltado para esse debate e para suas consequências a partir do exame de diferentes materiais e por meio de diferentes perspectivas teórico-metodológicas. Apesar desse volume significativo de pesquisas e dessa diversidade de perspectivas e de materiais, o funcionamento do modo de enunciação escrito, seu ensino e a sua aprendizagem ainda se mostram como desafios a serem enfrentados e, portanto, como locus de interesse, sobretudo, para pesquisadores e profissionais preocupados com o processo de ensino e aprendizagem da escrita. Tendo como base teórico-metodológica a articulação de diferentes contribuições advindas da Linguística, da Linguística Aplicada e dos Novos Estudos do Letramento (e de seus desdobramentos para o campo do Letramento Acadêmico), este simpósio tem como objetivo abrir espaço para o debate entre pesquisadores e profissionais cujos trabalhos (concluídos ou em andamento) busquem responder ao desafio de descrever o funcionamento do modo de enunciação escrito e/ou as consequências desse funcionamento para o ensino-aprendizagem da escrita em diferentes níveis de escolaridade. Mais especificamente, o simpósio pretende reunir trabalhos que examinem, a partir de diferentes perspectivas teórico-metodológicas, temas relacionados: (i) à aquisição da linguagem em seu modo de enunciação escrito, de sujeitos de diferentes graus de escolaridade – da educação infantil à educação em nível universitário; (ii) à discussão sobre vínculos e fronteiras entre letramento, alfabetização e escolarização; (iii) à problematização dos cruzamentos e dos limites entre os diferentes modos de enunciação da linguagem e seus efeitos para a enunciação escrita e o seu ensino; (iv) ao funcionamento do modo de enunciação escrito no contexto da tecnologia digital; e (v) à discussão do chamado letramento digital no ensino. Busca-se, desse modo, abrir espaço para reflexões sobre diferentes práticas de escrita (tradicionais ou digitais), incluindo questões de seu ensino e aprendizagem do nível básico ao universitário. Serão bem-vindos, também, trabalhos que explorem as tensões e as relações entre essas diferentes práticas e que discutam as eventuais contribuições que a articulação entre elas pode trazer para a compreensão do funcionamento da escrita e também do seu ensino. 

Palavras-chave: letramento; escrita; ensino.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 30

Título do simpósio: O papel das ciências do léxico na contemporaneidade: desafios e perspectivas

Coordenador: Halysson Oliveira Dantas (FANOR/DEVRY)

A virada de século não apenas marcou uma data importante no calendário, mas também deu início a uma nova era cujo marco fundamental é a transmissão de eventos históricos e a interação entre os povos ao alcance de um clique. A revolução digital (LÉVY, 2000) traz em si uma gama de outras revoluções que são reverberadas no surgimento de novas práticas sociais e discursivas que demandam o desenvolvimento de múltiplos letramentos (STREET, 2003). Na base desta situação, está o fato de que diversos gêneros discursivos se reelaboram (BAKHTIN, 2003) na mudança do meio impresso para o digital, bem como o desenvolvimento acelerado da informática nos últimos tempos, o qual tem propiciado a potencialização de certas tarefas que, nas práticas discursivas mediadas por textos impressos, exigiam trabalho braçal, demorado e dispendioso (BUZATO, 2009). O texto lexicográfico tem se beneficiado das inovações tecnológicas atuais, na medida em que incorpora aspectos multimodais e deixa mais saliente seu caráter pragmático-discursivo (PONTES, 2009). Nesse sentido, as Ciências do Léxico, quais sejam, Lexicologia, Lexicografia, Terminologia e Terminografia reclamam seu lugar nas discussões acerca das relações entre as Novas Tecnologias da Informação e Comunicação (NTIC) e a pesquisa em Linguística. Esse simpósio, pois, tem como objetivo central difundir investigações científicas cuja essência leve em conta a relação citada acima, em especial, no que diz respeito à produção e análise de dicionários eletrônicos (SCHRYVER, 2012), de língua comum ou de especialidade, e à comparação deste tipo de obra com as que se produzem para meio impresso; assim como o uso de tratamento informático para a catalogação e compilação de corpora lexicográficos e terminográficos. Ademais, é preciso aglutinar e fomentar pesquisas que envolvam as Ciências do Léxico e o hipertexto digital, haja vista que a quantidade de trabalhos neste campo, no Brasil, ainda é muito incipiente. Noutra direção, a disseminação de trabalhos que envolvam a relação supracitada se justifica ainda pela possibilidade de se inserir nos discursos pedagógico e acadêmico brasileiros a desmitificação do dicionário e o debate sobre seu uso como instrumento de catalogação e difusão dos saberes nas diferentes áreas do conhecimento.

Palavras-chave: ciências do léxico; hipertexto digital; dicionário.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 31

Título do simpósio: Questões em estudos discursivos

Coordenadores: Roberto Leiser Baronas (UFSCar) e Sírio Possenti (IEL-UNICAMP)

Desde o seu surgimento na geografia francesa do final dos anos sessenta do século passado, centrados no postulado de que o discurso é a um só tempo um objeto teórico e analítico, em que estão umbilicalmente intricadas questões relacionadas à linguagem, à história e à sociedade, os estudos discursivos vêm passando por inúmeras transformações tanto no que concerne ao seu dispositivo teórico-analítico quanto em relação aos objetos eleitos para a análise. Se até o final dos anos setenta do século passado, o discurso político verbal era o foco de interesse principal da maioria dos estudiosos do discurso, sobretudo, dos francofones, notadamente a partir das noções de formação discursiva, condições de produção, formação imaginária, pré-construído, memória discursiva e acontecimento discursivo, atualmente, por conta especialmente de o panorama científico ser bastante distinto daquele dos primórdios dos estudos do discurso, além de o foco de interesse migrar para  os mais distintos objetos, que não estão circunscritos somente ao verbal como outrora, há também consequentemente um forte investimento no engendramento de categorias teórico-analíticas distintas das inicialmente forjadas ao longo dos anos setenta. Nesse sentido, o presente simpósio objetiva acolher principalmente reflexões de pesquisadores do discurso, nas mais diferentes tendências dos estudos discursivos, que desejem refletir sobre ao menos uma das três pertinentes e relevantes questões discursivas, a saber: o ethos; os estereótipos e as pequenas frases. Tais questões, alicerçadas na tese de que as categorias analíticas são mistas e não discretas, portanto passíveis de ser mobilizadas também no seu conjunto, além de ser tratadas com base em distintas correntes dos estudos discursivos, podem ser discutidas mobilizando diferentes corpora de pesquisa, inscritos nos mais diferentes campos do saber (humor, política, literatura, economia, educação, mídia...) e, também buscando compreender o seu funcionamento discursivo em distintas cenas genéricas e distintos mídiuns. Espera-se com esse simpósio mostrar, por um lado, a produtividade da(s) categoria(s) elencada(s) para o tratamento de distintos corpora e, por outro, a relevância social dos estudos discursivos no tocante à formulação de possíveis respostas às prementes indagações éticas e morais que a sociedade atual impõe aos estudiosos do discurso.

Palavras-chave: discurso; ethos; estereótipos; pequenas frases.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 32

Título do simpósio: Escrita acadêmica em tempos de internacionalização do ensino e da pesquisa

Coordenadoras: Inês Signorini (UNICAMP) e Juliana Alves Assis (PUC Minas)

Nos últimos anos, a escrita acadêmica vem se constituindo, no Brasil, como um vigoroso campo de pesquisa no campo da linguística e da linguística aplicada, seja em razão do processo de massificação por que passaram/passam as instituições de ensino superior, seja em razão dos desafios trazidos pela demanda de internacionalização das universidades, alimentada pelo irreversível processo de mundialização que marca a contemporaneidade. Fortemente alimentado pela perspectiva socioantropológica dos estudos do letramento (STREET, 1984 e 2003; KLEIMAN, 1995; LEA e STREET, 1998; IVANIC, 1997 e 2000; dentre outros) e por articulações com abordagens de orientação discursiva (BAKHTIN, 2003; VOLOCHÍNOV, 2006; MAINGUENEAU, 1991, 2008), esse campo tem promovido pesquisas que tomam como foco desde a descrição dos gêneros do discurso que circulam na esfera acadêmica, com ênfase nas operações textual-discursivas requeridas pelo processo de apropriação de tais gêneros (CORRÊA e BOCH, 2006; SIGNORINI, 2007; 2011) até o exame de diferentes fatores que cercam as condições de funcionamento das práticas sociais e discursivas em que estes emergem e circulam (KLEIMAN e MATENCIO, 2005; SIGNORINI e CAVALCANTI, 2010). No simpósio ora proposto, interessa-nos colocar em discussão algumas importantes dimensões que recortam preocupações de frentes de investigação sobre a escrita acadêmica, quais sejam: (i) o conhecimento teórico-conceitual e as práticas metodológicas que fomentam o letramento acadêmico; (ii) as práticas de letramento acadêmico e o caráter pluridiscursivo e multimodal que as envolve, tendo em vista os desafios atuais trazidos pela demanda de internacionalização da universidade brasileira e pela internet; (iii) os modelos científico-ideológicos que regem o letramento acadêmico, considerando, principalmente, as dinâmicas oriundas do processo de internacionalização do ensino e da pesquisa.

Palavras-chave: escrita; letramento acadêmico; internacionalização.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 33

Título do simpósio: Argumentação e referenciação no ensino da língua portuguesa

Coordenadoras: Leonor Werneck dos Santos (UFRJ) e Rosalice Pinto (Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa)

Na sociedade atual, a atividade de argumentar, tanto no âmbito público quanto privado, assume um grande protagonismo. Desprovida, cada vez mais, da base silogística de sua origem, a argumentação tem se aproximado de aspectos retóricos, mais direcionados à busca pela adesão de ideias/opiniões por um auditório. Dessa forma, os locais de ensino, como espaços de formação e de desenvolvimento para os desafios societais, vêm tentando prestar o seu papel como agente transformador, para que os alunos desenvolvam competências para emitir opiniões, defender um ponto de vista de forma coesa, coerente e bem fundamentada. Além disso, muitos exames de aferição de competências no ensino (o ENEM, os vestibulares das universidades) estão ainda vinculados à produção de textos dissertativos em que o saber argumentar tem um papel de grande relevância. Neste contexto, a aprendizagem de aspectos de natureza linguística (e também de outros aspectos multimodais) mostra-se de extrema relevância para o aprimoramento dessas competências. Entretanto, a dificuldade que se impõe a pesquisadores e professores decorre da abrangência do próprio conceito de argumentação. Segundo Koch (1984) o ato de argumentar pode ser considerado no sentido stricto ou lato: no primeiro caso, temos os textos estruturados de maneira predominantemente argumentativa (por exemplo, editoriais, cartas do leitor etc.); no segundo, a argumentação é considerada como um ato fundamental em qualquer gênero textual, organizado tipologicamente de maneira argumentativa ou não (por exemplo, notícias, conversação espontânea etc.). Dentre as diversas estratégias que colaboram para a construção de sentido e para a orientação argumentativa de um texto, destaca-se o processo de referenciação, pelo qual se (re)constroem os objetos de discurso, colaborando para o projeto de dizer (cf. KOCH, 2008). O objetivo deste simpósio é refletir sobre aspectos relacionados aos estudos de referenciação e argumentação, em relação a questões teóricas e aplicações práticas para todos os níveis de ensino (fundamental, médio, superior). Procuraremos discutir de que forma os conhecimentos advindos dos estudos linguísticos (especialmente os relacionados à referenciação) podem vir a contribuir para práticas docentes com melhor adequação à aprendizagem da argumentação oral e escrita dos alunos. Concebemos o texto como objeto central de ensino, portanto a concretização de atividades de leitura e produção de textos só pode ser possível se os recursos linguísticos forem adequados aos diversos contextos em que são utilizados. Nossa base teórica procurará estabelecer um diálogo produtivo entre teóricos da referenciação e da argumentação, como autores da Linguística de Texto e do Interacionismo Sociodiscursivo, por exemplo, que evidenciam a relevância dos estudos textuais inseridos em suas práticas discursivas. Trabalhos de Mondada & Dubois (2003), Cornish (2011), Marcuschi (2008), Koch (2002, 2006), Koch & Elias (2016), Bronckart (1999), Cavalcante (2011), Santos (2005, 2009), Pinto (2010, 2015), dentre outros, serão de extrema relevância para efeitos teórico-analíticos. Para este simpósio, convidamos os diversos colegas a apresentarem contribuições que articulem a referenciação e a argumentação, em gêneros diversos. Procuraremos, com isso, sugerir algumas práticas docentes que possam vir a ser facilitadoras para o ensino/aprendizagem da língua portuguesa em diversos contextos de formação.

Palavras-chave: argumentação; referenciação; ensino.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 34

Título do simpósio: Análise dialógica do discurso: questões de gêneros, de campo da atividade humana e de ensino de línguas

Coordenadoras: Eliete Correia dos Santos (UEPB) e Maria de Fátima Almeida (UFPB)

A linguagem humana, concebida como atividade social, é um meio pelo qual os indivíduos interagem uns com os outros, já que “os signos só podem aparecer em um terreno interindividual” (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2009, p. 35). O homem constitui-se, portanto, como sujeito na linguagem e pela linguagem, pois esta é a condição fundamental para o processo de comunicação, que tem como material privilegiado a palavra. Nesse sentido, este Simpósio investe em discussões que, compreendendo o uso da linguagem humana como uma estratégia dialógica de acento valorativo, de apreciação, reflitam sobre a concepção de que não é do dicionário que o falante tira a palavra, mas de lábios alheios, em contextos e com intenções também alheios, com pontos de vista específicos e acentos valorativos sócio-historicamente situados (BAKHTIN, 2015). Partimos ainda, do ponto de vista teórico, do princípio de que “todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem. (...) O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos (...) cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos de gêneros do discurso” (BAKHTIN, 2010, p. 261-262, itálicos do autor). Nesse sentido, o Simpósio torna-se relevante por problematizar discussões que reflitam sobre as relações dialógicas em gêneros discursivos usados em contextos de interação social de diversos campos da atividade humana: acadêmico, literário, político, religioso, dentre outros. Assim, a sua justificativa corresponde à necessidade de contribuir com reflexões acadêmicas que concebam os fenômenos linguístico-discursivos a partir de situações concretas de comunicação e de interação, uma vez que o cotidiano das pessoas é marcado por inúmeras práticas que envolvem o uso efetivo da língua e que colocam em atividade as múltiplas faces disponibilizadas por ela, permitindo a utilização de específicas formas de interação, os gêneros do discurso. Os objetivos deste simpósio consistem em reunir trabalhos voltados para abordagens enunciativas e dialógicas da linguagem, procurando descrever seu funcionamento em diferentes campos de comunicação discursiva, bem como fomentar reflexões que estabeleçam a relação entre discursos e ensino de línguas, na tentativa de, a partir de ações pedagógicas, formar sujeitos leitores/escritores críticos via análises de enunciados concretos. Para tanto, aceita trabalhos que divulguem pesquisas – em andamento e/ou concluídas – fundamentadas na perspectiva da Análise Dialógica do Discurso e que trabalham os processos de produção de sentidos e de suas determinações histórico-sociais, seja no âmbito da análise de gêneros diversos, seja na análise destes gêneros em contextos de ensino-aprendizagem de línguas.

Palavras-chave: análise dialógica do discurso; gêneros discursivos; ensino de línguas.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 35

Título do simpósio: Operações enunciativas e práticas discursivas

Coordenadoras: Maria Aparecida Lino Pauliukonis (UFRJ) e Rosane Santos Mauro Monnerat (UFF)

A partir da proposta de Benveniste (1989): “A enunciação é a colocação em funcionamento da língua por meio de um ato individual de utilização”, o conceito de  subjetividade no discurso passou a ocupar um espaço cada vez maior nas discussões investigativas sobre a linguagem, o texto  e o discurso. No quadro teórico das teorias da enunciação, o sujeito tem uma posição privilegiada e o ato enunciativo é o lugar de constituição de identidades desse sujeito e dos modos de sua inscrição na língua.  Pelo menos duas consequências teóricas derivam dessa concepção: a referenciação linguística só se concretiza no ato inter-enunciativo, e a significação discursiva  tem, nas ações dos sujeitos enunciadores, sua principal  fonte geradora de sentido. Devem-se a Benveniste as bases para a análise das características formais da enunciação, com consequentes mudanças no foco investigativo tradicional: em vez de se focalizar o texto como um produto pronto ou o enunciado em si mesmo, passou-se a observar o próprio ato de produzir o discurso – a enunciação – a qual tem a propriedade fundamental de projetar-se no enunciado, por meio de marcas linguístico-discursivas específicas. Por sua vez, outras abordagens que tiveram por base as ideias de Bakhtin (2001) consideram importante observar a dialogização interna que há nos textos, a heterogeneidade de discursos e as vozes polifônicas cujo tratamento também carrega várias consequências para o sentido dos textos. Aceitando-se que toda enunciação é um ato interlocutivo, pois só se enuncia para alguém, a instância de discurso transferiu-se do foco centralizado no EU para o par formado pelo enunciador e pelo co- enunciador, cujas marcas de identificação podem ser detectadas no próprio ato enunciativo e nas imagens que eles projetam no discurso, construindo o que Aristóteles denominou de ethos discursivo, conceito fundamental, para os estudos da enunciação, relacionado à intersubjetividade e à modalização presentes nos diversos gêneros textuais. As propostas deste simpósio, cujo eixo temático centra-se em análises do discurso de base enunciativa, têm por objetivos gerais refletir sobre o fenômeno da enunciação e focalizar a análise de marcas discursivo-enunciativas presentes em textos de gêneros diversificados. Com base em pressupostos das teorias da enunciação e nas principais propostas da Teoria Semiolinguística do discurso (CHARAUDEAU, 2008), as pesquisas objetivam observar quais são os dispositivos enunciativos mais frequentes nos textos e qual sua funcionalidade no ato de aferirem legitimidade e credibilidade à imagem dos sujeitos enunciadores (ethos). As análises fundamentam-se no levantamento e categorização das operações de transformação (nível de categorias gramaticais) e de transação (nível textual-discursivo) e em sua funcionalidade discursiva. Um dos objetivos da pesquisa é contribuir para as atividades profissionais docentes, a fim de se formar a consciência crítica do alunado, em relação não só à problematização enunciativa, com o reconhecimento das diversas operações linguístico-discursivas utilizadas na construção do texto, como também à apreensão do significado ideológico e dos imaginários sócio--discursivos que subjazem ao contrato comunicativo de todos esses textos. Tendo por fim contribuir para melhorias nos processos de leitura e de interpretação de textos, pretende-se observar como o sujeito enunciador se revela, segundo os lugares (topoi) de onde atua discursivamente.

Palavras-chave: texto; discurso; enunciação.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 36

Título do simpósio: A linguística textual e suas interfaces

Coordenadoras: Mariza Angélica Paiva Brito (UNILAB/FUNCAP) e Vanda Maria Elias (UNIFESP)

Neste simpósio, objetivamos propor uma discussão sobre o lugar que a Linguística Textual ocupa na atualidade: o que faz e com quem dialoga. Para isso, convidamos pesquisadores, professores e alunos, a refletirem sobre o programa teórico-metodológico da Linguística Textual praticada no Brasil. A Linguística Textual sempre construiu suas pesquisas em interface com relações sociocognitivas e com relações discursivas, ajustando-as às suas necessidades teóricas e metodológicas.  Temos como objeto de investigação o texto em seus diferentes modos de organização com os quais ele integra uma cenografia específica dentro de uma enunciação ampla, sócio-historicamente constituída. Os parâmetros de investigação da Linguística Textual no Brasil vêm se delineando em torno dos seguintes eixos temáticos: os gêneros do discurso; a referenciação (CAVALCANTE, CUSTÓDIO FILHO e BRITO, 2014), (CAVALCANTE, CUSTÓDIO FILHO, 2010); a intertextualidade (KOCH, BENTES; CAVALCANTE, 2007) (CAVALCANTE, BRITO, 2014), (FARIA, 2014); a coerência, incluindo o desenvolvimento do tópico textual (KOCH, ELIAS, 2006); a sequência e o plano de texto, todos eles relacionados a estratégias de argumentação (KOCH, ELIAS,  2016).  

Palavras-chave: linguística textual; modos de organização do texto; interfaces.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 37

Título do simpósio: Língua e patrimônio

Coordenadoras: Maria Cleci Venturini (UNICENTRO/PR) e Verli Petri (UFSM)

A proposição de um simpósio que enfoque língua e patrimônio se justifica por muitas razões, das quais destacamos as seguintes: a) da perspectiva discursiva, língua e patrimônio constituem um par que coloca em relação o sujeito e a história, a partir de deferentes materialidades; b) é uma temática que é muito cara às nossas pesquisas e às pesquisas que temos orientado nos últimos anos; c) e, principalmente, porque compreendemos que sem a língua os sujeitos não têm como existir, nem como construir relações em nenhum domínio. Seja por um saber que vem do senso comum, seja de um saber construído teoricamente, língua e patrimônio são constitutivos. Neste simpósio, visamos reunir trabalhos que tomem a língua, essa ferramenta imperfeita, de tantas facetas, suscetível a falhas e a faltas, o que ‘habilita’ e ‘possibilita’ ao sujeito fazer-se sujeito, dizer-se, dizer o seu espaço, e construir a sua história e a história do Outro/outro no/pelo discurso sempre marcado ideologicamente, que independe da ciência, ou de filosofias idealistas ou materialistas. Olhamos para a língua da perspectiva da Análise de Discurso, constituída na e pela história por meio de práticas, sendo igual e diferente para todos; língua singularizada pelas formas como é mobilizada por sujeitos atravessados pelo inconsciente e interpelados pela ideologia. As relações elencadas por nós constituem um pouco da língua, da língua tomada como patrimônio que demanda/autoriza buscar um lugar de fundação, colocar sempre em suspenso a linguística que faz dela objeto de estudo e de prática, pensar em seu funcionamento nas práticas sociais. Esse é o viés da língua patrimônio atrelada à ciência, uma concepção diferenciada de ciência, nunca distanciada do sujeito, apesar do que diz o “discurso sobre” a prática científica. Assim, língua e patrimônio abarcam reflexões em torno da língua, espaço dialético e lugar do impossível, marcada pela não totalidade, pela divisão dos sujeitos que dominam ou são dominados, que falam ou são falados, que estão em uma posição e não em outra, autorizando e referendando o fato de que em um espaço/lugar só pode estar um sujeito/objeto, apesar da heterogeneidade, encaminhando e mostrando as cisões na formação social e na língua. Língua e patrimônio abarcam também a história da língua (tantas vezes movida pelo desejo da busca pela origem e pela necessidade de explicar sua formação), das muitas línguas ‘portuguesas’ do e no Brasil; a história da língua plena em interdições, seja indígena seja de imigração, levando-se em conta o sujeito e o seu funcionamento na língua; a história da língua no lugar e fora do lugar (as formas de identificação do sujeito nesse funcionamento), da língua de ferro, da língua de madeira, da língua de vento; a história da língua que se realiza na relação sujeito/autoria, na reversibilidade e nas divisões; a história da língua no museu e a língua do museu; bem como a língua das artes, da política, da ciência, da militância, das ruas, das disputas, da manipulação, da tomada de poder político, da tradução, da constituição de realidades e verdades, de simulacros, a língua, enfim, da vida e, a língua da escola. A língua do novo e do velho. Que línguas são essas? Que relações os sujeitos estabelecem com essas línguas e como elas podem ser do mundo e depois do museu e caber no museu? Este simpósio comporta diferentes versões de língua e de patrimônio, abarca muito, mas nem tudo, tendo em vista que na Análise de Discurso a língua possui uma base, que é linguística, mas o mais que a constitui decorre de processos e, nesses processos, a repetição, as redes, os esquecimentos, resumindo: a vida e a ciência e o todo que não é todo.

Palavras-chave: língua; memória; patrimônio.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 38

Título do simpósio: Contatos e conflitos: identidades e culturas

Coordenador: Pierre François Georges Guisan (UFRJ)

O vínculo entre a(s) identidade(s) e a(s) cultura(s) pode e deve ser examinado na perspectiva do contato e do conflito linguístico. Os mitos da formação de uma cultura procedem em grande parte de preconceitos que dizem respeito, dentre outras coisas, ao que se costuma chamar de invenção da escrita. O que veio antes, a fala ou a escrita, o gesto ou a fala? Qual foi e qual é a função da cultura ou da identidade na formação das línguas ao longo da História? A função da escrita seria de comunicar, perenizar, elitizar ou democratizar? Tentaremos mostrar a complexidade e os paradoxos que regem as relações nada evidentes entre esses conceitos. Enfim, veremos que é provável que estejamos assistindo nos dias de hoje a uma nova revolução que transforma radicalmente o lugar da língua, da cultura, da identidade e da escrita nas sociedades – revolução geralmente associada à globalização e à internet. De princípio, existe uma situação conflituosa resultando das funções antagônicas da língua dita oral – processo em constante mudança – e da escrita – que, fixada em papel ou em outro suporte, visa à perenização, ou seja, ao imobilismo.

Ao examinarmos as origens e as transformações das línguas e das escritas, assim como as diversas hipóteses com as quais preenchemos as nossas ignorâncias, só podemos verificar que as transformações ou mudanças que afetam as línguas e as escritas que lhes são associadas caminham por itinerários diferentes, com ritmos diferentes, e condicionadas por fatores divergentes, sejam eles culturais ou identitários, resultantes de contatos e/ou conflitos. Outro ponto de conflito é a própria definição daquilo que é uma língua, em oposição, por exemplo, a uma variedade, um dialeto, um socioleto ou um registro, que está longe de ser um ponto pacífico. Geralmente, recorre-se à escrita para caracterizar uma língua, em oposição a outros “falares” de menos prestígio. Como se pode sustentar tal uso da escrita, já que parece ser demonstrado que uma língua e as escritas das quais se faz uso em determinada sociedade são na verdade processos e objetos diferentes? A metáfora que transforma as línguas em seres vivos, com árvores genealógicas, línguas mãe e irmãs, de contato ou de casamento, se encaixa claramente numa descrição explicativa que data do triunfo do positivismo no século XIX. Só que as línguas não são objetos, ainda menos seres vivos, mas são processos. Ao contrário da escrita, que pode ser tanto um objeto material, como uma técnica. Nossa proposta seria um questionamento e um reexame crítico de categorias tidas até agora como noções consensuais, no que diz respeito em particular a: contato e conflito linguístico, língua oral versus língua escrita, norma versus variedade, tipologia das escritas e família de línguas. Para tanto, recorreremos aos dados variados dos quais dispomos atualmente sobre a história das línguas, as diferentes técnicas de escritas tanto ao longo da história como na atualidade, os objetivos – e preconceitos – da dialetologia, os atlas linguísticos, os pressupostos da educação linguística escolar, last but not least, as mudanças nos tempos de hoje, com os nem tão novos meios de comunicação e de armazenamento.

Palavras-chave: contato; conflito; culturas; identidade.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 39

Título do simpósio: Os estudos linguísticos no Brasil: história, historiografia e ideologia.

Coordenadores: Neusa Maria Bastos (PUC-SP) e Ricardo Cavaliere (UFF)

O Simpósio pretende discutir temas atinentes ao percurso dos estudos linguísticos brasileiros em todas as suas vertentes, seja a histórica, que cuida de fatos, modelos teóricos e produtos acadêmicos decorrentes da atividade do filólogo ou do linguista no cenário acadêmico nacional, a historiográfica, que se ocupa do estudo interdisciplinar da construção do saber linguístico no percurso da atividade científica brasileira, ou a ideológica, que avalia a presença do ideário filosófico e epistemológico norteador do pensamento linguístico ao longo dos períodos evolutivos da Linguística como ciência. Na vertente histórica, incluem-se trabalhos específicos sobre a obra e a biografia de filólogos e linguistas brasileiros que exerceram papel proeminente nos séculos XIX e XX, bem como estudos específicos sobre gramáticas missionárias e seu papel no processo de colonização e edificação da sociedade brasileira, inclusive no tocante ao contato linguístico em perspectiva diacrônica. A vertente historiográfica poderá abranger temas como o da influência doutrinária, das fontes canônicas e marginais e da metodologia estabelecida pela meta-historiografia. Os textos que cuidam especificamente das ideias linguísticas no Brasil podem pautar-se em fundamentação teórica diversificada, não obstante claramente definida na submissão do trabalho. O simpósio também abre oportunidade para a apresentação de textos em áreas conexas, referentes à reflexão sobre o papel social do linguista, as estratégias de ensino do português como língua nacional e as políticas públicas referentes ao desenvolvimento e aprimoramento do ensino na área da linguagem. Nessas linhas adjetivas, são bem-vindas contribuições que toquem questões como norma gramatical, conceito de purismo, exemplaridade linguística, preconceito linguístico dentre outras congêneres. Uma questão fundamental é refletir sobre o lugar privilegiado que o exame dos debates políticos, das disputas linguísticas e da forma de construção das histórias e teorias adquire nesse momento em que ação e discurso se tornam equivalentes. Com a problematização de uma História em si, fica a historiografia encarregada de mapear, traçar a genealogia das diversas narrativas da história que estão em embate. A história surge como um processo de luta de várias interpretações da história, de modo que a disputa política se torna uma disputa linguística. Serão muito bem-vindos os trabalhos que discutam essa problemática da ação e do discurso, tais como os que tratem da questão do lugar social da produção historiográfica e da perspectiva de encarar a ação "como obra aberta", sujeita a constantes interpretações e reinterpretações (RICOEUR). A renovação da história política, sua aproximação da esfera cultural, a intenção de contar histórias jamais contadas - dos injustiçados, dos anônimos - e descobrir novos atores históricos podem ser temáticas interessantes para pensar os impactos da "virada linguística" na história da historiografia. Numa acepção mais teórica, podemos perceber que o esvaziamento do conceito moderno de história acarreta uma espécie de congelamento da concepção de política. Não havendo mais um processo da história, mas diversas narrativas sobre a história, seria possível entender, como os críticos do pós-modernismo, que está em jogo uma perda do sujeito histórico. Se partirmos de Koselleck, a questão seria a contração do "horizonte de expectativas", da capacidade de fazer história. No diagnóstico de Hartog, a constatação de um "presente hipertrofiado". Nessa linha, o Simpósio está aberto àqueles que visam pensar a relação entre história e política, refletindo sobre a consciência histórica do tempo presente e da historiografia contemporânea.

Palavras-chave: estudos linguísticos; história; historiografia; ideologia; estratégias de ensino do português; políticas públicas.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 40

Título do simpósio: Aquisição fonético-fonológica de língua estrangeira: desafios teórico-metodológicos

Coordenadores: Denise Cristina Kluge (UFPR) e Ubiratã Kickhöfel Alves (UFRGS)

Nos últimos anos, a área de Aquisição Fonético-Fonológica de Língua Estrangeira vem passando por um grande crescimento não somente no contexto acadêmico internacional, mas, também, em nosso país. Conforme apontam Alves & Cardoso (2015), trata-se de uma subárea da linguística de caráter multidisciplinar, uma vez que as pesquisas nesse âmbito devem lidar com os conhecimentos originados em diversas outras áreas dos estudos linguísticos, como a fonética, a fonologia, a psicolinguística, a sociolinguística, a linguística aplicada, dentre outras. Mais do que simples e unicamente fazer uso dos conhecimentos advindos de todas essas áreas, o campo de Aquisição Fonético-Fonológica de Língua Estrangeira, através de seu material empírico, dos cuidados metodológicos que regem suas pesquisas e das reflexões sobre os dados coletados, presta, também, contribuição a estas diferentes áreas da Linguística. Dentre uma grande diversidade que abarca, inclusive, diferentes concepções acerca do que é língua e de como são adquiridos/desenvolvidos os sistemas linguísticos, esta nova área se estabelece, portanto, através da interlocução de todos esses campos, caracterizando não um mero somatório ou uma junção de diferentes áreas, mas, sim, um novo campo de investigações em si, que abrange os pesquisadores que se voltam ao estudo experimental do desenvolvimento dos sistemas sonoros adicionais dos indivíduos. Considerado o caráter interdisciplinar da área, vários são os tópicos e questões de pesquisa correntes. Encontramos trabalhos que se voltam à relação entre a percepção e a produção de segmentos específicos da língua-alvo, bem como estudos voltados a unidades suprassegmentais. Encontramos, também, estudos que se voltam à verificação dos efeitos que diferentes metodologias de intervenção (de sala de aula e laboratoriais), tais como instrução explícita e treinamento perceptual/produtivo, podem exercer no que diz respeito à tarefa de acelerar o desenvolvimento do sistema de sons do aprendiz. Dado o grande crescimento verificado na área, expresso no número de trabalhos de Mestrado e Doutorado recentemente defendidos em nosso país, este simpósio visa a congregar pesquisadores de diferentes regiões e centros acadêmicos do Brasil e do exterior. Através deste simpósio, temos não somente o objetivo de promover uma oportunidade de promover uma interlocução entre os pesquisadores da área. Mais do que isso, esperamos, através da interlocução com os pares, um debate sobre os desafios teóricos e metodológicos a serem enfrentados por todos aqueles que desenvolvem pesquisas nesta área de investigação. Através da apresentação e da discussão de trabalhos, esperamos, dessa forma, promover uma reflexão a respeito de como, enquanto área em desenvolvimento, podemos aprimorar a metodologia experimental que caracteriza nossos estudos, bem como instaurar a discussão acerca da necessidade de consonância entre os cuidados metodológicos empregados nos estudos e as concepções de língua e desenvolvimento linguístico que regem os trabalhos. Acreditamos, dessa forma, que o desenvolvimento deste simpósio se justifica não somente por estreitar os laços entre os pesquisadores dedicados a este novo campo de investigações, mas, também, por servir como elemento motivador para a reflexão da agenda de pesquisas e dos desafios a serem enfrentados pelos seus investigadores.

Palavras-chave: aquisição de língua estrangeira; fonética e fonologia de línguas estrangeiras; ensino de língua estrangeira.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 41

Título do simpósio: A pesquisa e o compromisso linguístico em uma perspectiva histórica e filosófica

Coordenadores: Ana Paula El-Jaick (UFJF) e Cristiano Barros Barreto (UFF)

O simpósio proposto acolhe pesquisadores da linguagem que consideram, em suas análises discursivas, a História, a Cultura, a Sociedade. Também de um ponto de vista filosófico, este simpósio pretende discutir análises da linguagem ordinária e implicações éticas que perspectivas radicalmente pragmáticas da linguagem podem impactar. A relevância do simpósio “A pesquisa e o compromisso linguístico em uma perspectiva histórica e filosófica” está em firmar alianças institucionais de pesquisa bem como em abrir espaço nesta ABRALIN para se discutir perspectivas linguísticas que estão no entremeio – entre a Linguística, a História, a Psicanálise e a Filosofia da Linguagem. Este simpósio tem como bases teórico-metodológicas fundamentais a História das Ideias Linguísticas (HIL) tal como formulada por Sylvain Auroux, no entrecruzamento com a Análise do Discurso tal como proposta por Michel Pêcheux e trazida para o Brasil por Eni Orlandi. Além disso, no campo da filosofia da linguagem, nos filiamos ao que ficou conhecido como filosofia da linguagem ordinária, privilegiando a perspectiva de linguagem do assim chamado segundo Wittgenstein. Desta maneira, primariamente, recusamo-nos a propor alternativas teóricas acabadas, prevalente nos estudos formais sobre a linguagem. Em particular, seguimos Orlandi (2001) quando defendemos a íntima relação dos instrumentos linguísticos, situados sócio-historicamente, com o ensino, a formação discente, e a constituição da imagem da língua e da própria prática linguística. A produção de conceitos pela pesquisa linguística coordena-se em um mecanismo de retroalimentações diretamente nas representações dos objetos primários de estudo da linguística, a língua e a linguagem, e na constituição dos sujeitos linguísticos. É também Orlandi (1999) que nos lembra que a linguagem é mediação necessária entre ser humano e as realidades natural e social. Desta forma, a HIL nos abre um panorama histórico de como estas mediações foram concebidas pelos analistas situados em seus contextos socioculturais e assim nos dá ferramentas para teorizar a interpretação e a produção dos sentidos contextualmente situados. Pelo historicismo de Auroux, vemos a construção de uma história não-teleológica, descritiva, não como uma tentativa da total superação de paradigmas anteriores, mas aquela com um olhar pluralista. Finalmente, contamos com o apoio das ideias de Wittgenstein, em particular em sua perspectiva sobre uma linguagem que é irredutível, sem limites, sem telos, sem fundo, a-intelectual, uma coleção de jogos, tal como uma forma de vida, em cuja participação e uso realiza-se o processo de compreensão. A partir dessas posições teóricas, nossos objetivos gerais são a discussão das implicações políticas nas pesquisas linguísticas, bem como o papel da História e da Filosofia na análise linguística.

Palavras-chave: história das ideias linguísticas; análise do discurso; filosofia da linguagem.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 42

Título do simpósio: Mitos de origens na história das ideias linguísticas ou do corte epistemológico

Coordenadoras: Amanda Scherer (UFSM) e Cristiane Dias (Labeurb-Unicamp)

As línguas e as identidades (individuais, sociais, nacionais) sempre estiveram ligadas. Nesse âmbito, as ciências também se constituem pelo modo como língua e sujeitos vão se inscrevendo historicamente e, em consequência, vão produzindo certos conhecimentos e institucionalizando-os em torno de disciplinas. O processo de disciplinarização é, portanto, um complexo epistemológico que vai assentando institucionalmente os “pontos sem regresso” (PÊCHEUX e BALIBAR, 1971) do processo histórico de formação científica das disciplinas. Os “pontos sem regresso” dizem respeito ao corte epistemológico, no caso a que se referem Pêcheux e Balibar, em relação à história da física. Nesse âmbito, os autores (idem, p. 12) afirmam: “o conceito de corte nada tem a ver com o projeto voluntarista de efetuar, na ciência, um “salto” fora da ideologia (...)”. Partindo dessa formulação a respeito do corte, entendemos que pensar os mitos de origem na história das ideias linguísticas, como propomos nesse simpósio, é de fundamental importância, pois implica reunir reflexões em torno das “linhas de demarcação” disciplinares que foram constituindo politicamente (1) a história da linguística, (2) a história das línguas, (3) a história das disciplinas, (4) a história da identidade nacional. Esses são os eixos de problematização desse simpósio a partir dos quais os trabalhos devem propor suas reflexões, levando em conta que a ciência é um produto histórico-discursivo e que os efeitos desse processo produzem demarcações e reformulações no interior da própria ciência, o que podemos, no caso da linguística, designar como disciplinarização.

Palavras-chave: corte epistemológico; disciplinarização; ciência.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 43

Título do simpósio: Aprendizagem de línguas assistida por mídias móveis e a formação de professores

Coordenadora: Janaina da Silva Cardoso (UERJ)

O baixo custo das tecnologias móveis, em especial o celular pré-pago, facilitou muito o acesso à informação no Brasil. É importante lembrar, porém, que informação não significa necessariamente conhecimento e, muito menos, uma utilização crítica dessas tecnologias. Dados da Anatel indicam que o Brasil terminou abril de 2016 com 256,4 milhões de celulares e densidade de 124,66 cel/100 hab (Dados apresentados pela Teleco). Ou seja, há mais celulares do que habitantes no Brasil. No segundo trimestre de 2015, o número de brasileiros que usam o smartphone para acessar a Internet ultrapassou a marca de 72 milhões. Os donos de smartphones no Brasil possuem, em média, 15 aplicativos instalados, e o Whatsapp está presente em 93% dos aparelhos. O Brasil é o terceiro país no ranking dos viajantes conectados (Dados de dezembro de 2015, apresentados na Exame 22/04/2016). Se as mídias móveis, incluindo celulares e tablets, são tão populares no dia a dia dos brasileiros, no ambiente escolar, sua utilização ainda é bem ínfima e, por muitas vezes, proibida pelos professores ou pelo sistema educacional. Não se trata apenas de uma questão de idade, pois, na mesma pesquisa, foi constatado que 70% dos usuários com mais de 55 anos trocam mensagens por celulares, sendo a média total de 88%. As mídias móveis nos oferecem uma série de oportunidades para aprendizagem de línguas. São aplicativos educativos, aplicativos não projetados para ensino, mas que podem ser usados como tais, jogos digitais e redes sociais. No entanto, não se trata apenas do saber utilizar as mídias digitais, mas aplicá-las de forma crítica.  Segundo Lankshear & Knobel (2008), letramento digital pode ser definido como “práticas contextualizadas de ensino que levam em conta aspectos cognitivos e sócio-emocionais envolvidos no trabalho em ambiente digital“ (LANKSHEAR & KNOBEL, 2008 apud NASCIMENTO, 2014). “Enquanto a escola continua linear, mecânica, reducionista, o mundo está cada dia mais complexo, aberto, interdisciplinar, colaborativo, e hipertextual. Desta forma, o aluno ao sair da escola tem que saber lidar e sobreviver no mundo, e a escola deveria facilitar esse processo“ (CARDOSO, 2015), sendo que as “práticas pedagógicas que se apresentaram libertadoras no passado não precisam ser esquecidas em nome da novidade, mas renovadas“. (WENDEL FREIRE, 2011, p. 58). Sendo assim, o objetivo deste simpósio é discutir e refletir sobre a importância da integração das tecnologias de informação e comunicação, em especial das mídias móveis, ao processo de formação e desenvolvimento de professores de idiomas. Gostaríamos, também, de abordar assuntos direta ou indiretamente ligados ao tema, como aprendizagem por projetos, inversão da sala de aula e aprendizagem a distância. Como estamos em fase de mudança curricular das licenciaturas, acreditamos que o momento seja propício para esta discussão sobre a possível adaptação dos cursos de formação e capacitação de professores, incluindo a questão do letramento digital. Esperamos que essa discussão implique em um uso mais eficaz das tecnologias educacionais, como suporte para a construção de uma escola mais problematizadora, desafiadora, e que propicia a construção de conhecimento colaborativamente e de maneira crítica.

Palavras-chave: formação de professores; tecnologias; mídias móveis.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 44

Título do simpósio: Práticas de linguagem em contextos digitais: investigando processos de emergência e estabilização de textos/discursos para a legitimação social

Coordenadoras: Anna Christina Bentes (UNICAMP) e Karina Falcone (UFPE)

Esta sessão tem como proposta colocar em diálogo um conjunto de trabalhos que considerem que as ações de textualização/ discursivização configuradoras de gêneros do discurso e de interações verbais constituem-se em um lócus importante de observação tanto da emergência de processos de (des)legitimação de atores e lugares sociais específicos como também das possibilidades de movimentação desses atores nas tramas sociais nas quais estão envolvidos. Cada trabalho deve enfocar diferentes conjuntos de textos e/ou gêneros do discurso, analisando como os recursos textuais e discursivos mobilizados auxiliam na estruturação de discursos característicos de determinados campos sociais e como estes discursos são moldados pelas forças dos campos. A proposta pressupõe que sejam analisadas práticas de linguagem em contextos digitais que procurem mostrar, por exemplo, que estilizações da linguagem e categorizações sociais são recursos fundamentais nas lutas por (des)legitimação de posições nos diversos campos sociais. Também é possível analisar como determinados gêneros/textos podem revelar esquemas classificatórios que apontem para o reforço de/ ou para a crítica a estratificações sociais, cooperando para a inscrição dos atores em ordens sociais específicas. Nossa proposta também contempla a reflexão sobre como blogs, sites, e seus respectivos gêneros digitais, estão inseridos nas redes socais buscando pôr em discussão alguns elementos dos processos de (des)legitimação que ancorem as disputas no interior dos campos. As pesquisadoras que estão propondo esta sessão compartilham os referenciais teóricos da teoria da prática social e de teorias sociolinguísticas, do texto e do discurso de base crítica, buscando produzir uma arbitragem interdisciplinar, especialmente entre teorias sociais e teorias linguísticas, que possibilite uma compreensão mais ampla das relações entre as práticas de linguagem e a configuração dos campos sociais.

Palavras-chave: legitimação social; texto/discurso; contextos digitais.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 45

Título do simpósio: Entre a escrita e outras modalidades: multi e novos letramentos em jogo

Coordenador: Petrilson Alan Pinheiro (UNICAMP)

As tecnologias digitais da informação e da comunicação têm estado fortemente presentes na vida social e cultural de nossas sociedades e, em particular, têm possibilitado multi e novos letramentos que, devido a novas e cada vez mais amplas condições técnicas e socioculturais da internet, se complexificam e assumem um outro escopo se comparados com práticas de letramento tipográficas. O impacto dessas tecnologias, impulsionadas por transformações sociais, econômicas, culturais e tecnológicas, tem se mostrado tão onipresente em diferentes práticas de letramentos que, em vários contextos, já não se pode construir inteligibilidade sobre a linguagem, baseando-se exclusivamente em práticas grafocêntricas que, embora importantes, não são suficientes para dar conta dessas transformações. Com base nesse cenário, que dialoga com o referencial teórico dos multiletramentos (NEW LONDOW GROUP, 1996; COPE & KALANTZIS, 2000; LUKE, 2004; COPE & KALANTZIS, 2009) e dos novos letramentos (KNOBEL & LANKSHEAR, 2007; 2008; PINHEIRO, 2010; 2014), buscando contemplar pesquisas de cunho empírico e de base qualitativo-interpretativista, o objetivo deste simpósio é reunir e discutir trabalhos que enfoquem a relação entre práticas de letramentos (escolares e não-escolares) centradas na escrita e outras modalidades de construção de sentidos (som, imagem, imagem em movimento etc.), cujas fronteiras se mostram porosas e, por isso, se tornam um lócus de bastante interesse para o campo aplicado de estudos da linguagem, particularmente para a área de estudos dos letramentos.

Palavras-chave: escrita; multiletramentos; novos letramentos; tecnologias digitais da informação e da comunicação.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 46

Título do simpósio: Gêneros textuais/discursivos: um olhar para os múltiplos contextos acadêmicos

Coordenadores: Cátia Martins (UniCEUB) e Rodrigo Albuquerque (UnB/LIP)

Nas palavras de Marcuschi (2008), "o estudo dos gêneros não é novo, mas está na moda". Nesse sentido, boa parte do debate em torno dos gêneros ainda se centra na perspectiva dos produtos (e não dos processos) e focaliza as propriedades formais (e não as dialógicas). Diante dessa constatação, nosso simpósio objetiva promover discussões vinculadas ao componente dinâmico, dialógico e processual dos gêneros textuais/discursivos, inscritos nas demandas sociais provenientes dos múltiplos contextos acadêmicos, bem como compartilhar experiências relativas aos gêneros textuais no ensino superior que têm privilegiado as produções relevantes para a formação acadêmica do graduando. Esse debate é de suma relevância por ainda deparamos com olhares epistêmicos que focalizam tão somente aspectos estruturais dos gêneros, reduzindo as perspectivas investigativas para o fazer metalinguístico e instrucional, o que implica perder de vista as reais condições de produção dos gêneros. Nessa perspectiva, ao abordar o gênero, iremos considerar as instâncias e as esferas sociais que delimitam historicamente os discursos e seus processos, as práticas discursivas efetivamente em construção e os processos de textualização resultantes, ou seja, as próprias produções e ações comunicativas. Acreditamos que cada ambiente social demanda certas ações próprias do domínio discursivo no qual se insere e que o êxito comunicativo em cada ambiente depende, também, dos conhecimentos acerca dos modos como se estabelecem as interações, que devem obedecer a formas relativamente estáveis, o que exige, especialmente desse componente dinâmico da definição bakhtiniana (que transcende aspectos estruturais), o domínio de conhecimentos específicos dos interlocutores. Por isso, refletimos que as atividades de análise da linguagem nos cursos de graduação devem propiciar ao futuro profissional oportunidades de lidar com as práticas sociais próprias do âmbito profissional do qual este fará parte. Assim, sabemos que é imprescindível o graduando ter acesso a gêneros textuais da sua esfera acadêmica e aprender a lidar com eles, em eventos discursivos específicos. Assim, nosso simpósio, fundado nas bases da sociolinguística interacional em interface com a linguística textual e com os novos estudos de Letramento, se inscreve na perspectiva sociohistórica e dialógica, e na interacionista e sociodiscursiva, representadas, respectivamente por Bakhtin (2006 [1929], 2010) e Bronckart (2007), influenciadas também por Swales (1990), Bhatia (1993), Barton & Hamilton (1998), Meurer (2000), Street (2003), Machado et al. (2004), Gee (2005), Meurer et al. (2005), Rojo (2005), Bazerman (2005, 2006, 2011), Hanks (2008), Koch e Elias (2008), Marcuschi (2008, 2010), Antunes (2009), Motta-Roth e Hendges (2010). Contudo, este simpósio não se restringe a um dado quadro teórico, considerando a forte interface com outras perspectivas, tais como a comunicativa, a sistêmico-funcional, a sociorretórica e a da análise crítica. Esse debate se justifica, assim como já mencionamos, em decorrência da frequente discussão de gêneros dissociada da análise dos atos de fala dos sujeitos presentes na cena genérica que evoca, objetiva e subjetivamente, contextos distintos vivenciados pelos/as estudantes em diversas práticas acadêmicas. Esperamos fomentar a discussão acerca das experiências de ensino de gêneros e das pesquisas em desenvolvimento nos múltiplos contextos acadêmicos brasileiros.

Palavras-chave: gêneros textuais/discursivos; gêneros acadêmicos; dialogismo.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 47

Título do simpósio: Estudos retóricos em gêneros textuais/discursivos

Coordenadores: Deywid Wagner de Melo (UFAL) e Maria Francisca Oliveira Santos (UNEAL)

Este simpósio trata dos estudos retóricos voltados aos diversos gêneros textuais/discursivos das modalidades oral e escrita da língua, quer sejam relacionados à sala de aula, quer sejam relacionados aos contextos sociais que envolvem ambientes profissionais ou da vida cotidiana do ser humano, bem como àqueles do domínio discursivo político. Tendo em vista a importância que a argumentação possui na vida das pessoas quando os sujeitos estão envolvidos com os diversos discursos que circulam na sociedade, faz-se necessário buscar teorias que colaborem para o entendimento de como acontece o processo argumentativo tão recorrente nas práticas sociais, pois, ao abrir a boca, o interactante já produz textos que constituem gêneros textuais/discursivos conforme o propósito comunicativo pretendido. Nesse sentido, o simpósio objetiva reunir trabalhos que privilegiam a temática em pauta, a fim de que se possam mostrar análises de gêneros na perspectiva apresentada. As abordagens metodológicas podem ser de natureza qualitativa, quantitativa ou quali-quantitativa, conforme as pretensões das pesquisas realizadas ou em processo. Os autores com os quais se busca dialogar são Reboul (2004), Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005), Marcuschi (2008), Koch (2003), Koch e Elias (2009), Fairclough (2001), Van Dijk (2010), dentre outros. À luz das teorias desses autores, pretende-se evidenciar as marcas argumentativas materializadas nos discursos na complexidade das relações humanas em que a todo o momento se busca convencer ou persuadir o outro daquilo que se defende. Entende-se retórica como a arte de persuadir pelo discurso, segundo Reboul (2004), presente no ato de argumentar, mas não se desprezam os demais conceitos retóricos existentes, desde que sejam complementares àqueles na ocasião discutidos. Em se tratando de discurso, adota-se a idéia de “um modo de ação, uma forma em que as pessoas podem agir sobre o mundo e especialmente sobre os outros, como também um modo de representação [...] é socialmente constitutivo [...] contribui para a constituição de todas as dimensões da estrutura social que, direta ou indiretamente, o moldam e o restringem” (FAIRCLOUGH, 2002, p. 91). Nessa linha conceitual, aparecem, também, os conceitos de ideologia e poder que demarcam as relações sociais, em especial, em contexto argumentativo, quando o contraditório se instaura e surgem os conflitos de dominação e poder nessas estruturas sociais envolventes.

Palavras-chave: gêneros textuais/discursivos; argumentação; práticas sociais; discurso.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 48

Título do simpósio: Os discursos da/na mídia: efeitos de sentido, sujeito e sociedade

Coordenadoras: Dantielli Assumpção Garcia (UNIOESTE) e Giovanna Benedetto Flores (UNISUL).

A proposta para este Simpósio é reunir pesquisas que discutam questões relacionadas à mídia, tendo como aparato teórico a Análise de Discurso (AD), conforme proposta por Michel Pêcheux na França e desenvolvida no Brasil por Eni Orlandi e demais pesquisadores. Objeto de reflexão há muito tempo dos analistas de discurso, os discursos em circulação na mídia desempenham um papel fundamental na constituição do sujeito e da sociedade. Este simpósio, compreendendo a mídia como texto de natureza dispersa, já que “ora se propaga por lugares materiais da cidade – faixas, placas, outdoors – ora o seu lugar é ainda mais fugaz: virtual, imagético, sonoro” (PAYER, 2005), interessa-se por pesquisas que busquem analisar discursivamente qual é o poder da mídia no contexto sócio-histórico-ideológico, pois entendemos que a linguagem é transformadora e que o jogo da constituição da linguagem se dá por meio de processos histórico-sociais, mostrando que a palavra é uma prática social determinada por certos efeitos políticos-ideológicos do texto. Se o discurso é efeito de sentido entre locutores, é através do funcionamento da linguagem que podemos observar discursivamente a relação dos sujeitos e dos sentidos afetados pela língua e pela história. Como nos ensina Pêcheux (1988), os sujeitos são constituídos na/pela linguagem, marcados histórica e ideologicamente. Outro conceito fundamental para compreendermos essa relação sujeito-sentidos é a memória discursiva. Para a AD, a memória será constituída dos sentidos legíveis a partir do que pode e deve ser dito numa posição, determinada por uma formação discursiva dominante. Um dos modos de se pensar a noção de memória na Análise de Discurso é pela sua ligação ao interdiscurso, uma instância de sentidos que disponibiliza dizeres que foram enunciados anteriormente, em outros lugares, produzindo deslocamentos nas redes de filiações sócio-históricas e ideológicas. Pêcheux (1999) entende que não se trata de uma memória individual, mas de “sentidos da memória mítica, da memória social inscrita em práticas, e da memória construída do historiador”. Diante desses apontamentos em torno da noção de memória, da relação sujeito-sentidos-linguagem, serão acolhidas neste simpósio pesquisas de cunho teórico e/ou analítico que trabalhem com discursos formulados, constituídos e em circulação (ORLANDI, 2005) na mídia e que tenham como objeto de análise diferentes materialidades discursivas: imagens, vídeos, músicas, capas de revistas, reportagens jornalísticas, peças publicitárias, campanhas nas redes sociais e que reflitam sobre a constituição dos sentidos e dos sujeitos contemporâneos em face da proliferação cotidiana da linguagem midiática. Também serão aceitos trabalhos que toquem nas seguintes questões: qual é o poder da mídia na sociedade (capitalista) contemporânea? Por que diferentes áreas (antropologia, sociologia, psicologia, história) têm escolhido como objetos de estudo os discursos midiáticos? Quais são as formas de linguagem e de sujeito que vêm sendo requisitadas na contemporaneidade frente à mídia? Qual é o lugar da memória (PÊCHEUX, 1999) diante da saturação cotidiana da linguagem na mídia? Como o advento das redes sociais, do ciberespaço potencializou a formulação, constituição e circulação dos discursos da mídia? Como a linguagem midiática é (re)significada no espaço digital? Como o digital modificou os discursos da mídia impressa? Por fim, este simpósio justifica-se e tem relevância por pretender produzir reflexões acerca do modo como os discursos da/na mídia (impressa/digital) afetam a constituição dos sujeitos, dos sentidos e da sociedade.

Palavras-chave: análise de discurso; mídia; sujeito.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 49

Título do simpósio: A pesquisa em análise de discurso fomentando a produção de práticas inovadoras de leitura: intervenção social através da pesquisa, ensino e extensão

Coordenadores: Eduardo Alves Rodrigues (UNIVAS)  e Luiza Castello Branco (CAPES-PNPD/UFF)

Com este Simpósio, espera-se reunir resultados de pesquisas que mobilizem o quadro teórico-metodológico da Análise de Discurso para compreender o funcionamento discursivo da sociedade a partir de práticas de leitura que possibilitem a produção de inovação no modo de pensar as relações entre sujeitos, situados em suas práticas profissionais, compreendidas como espaço político-simbólico de transmissão (sempre incompleta) de saberes e conhecimentos sobre a cidade, o urbano, o ensino, o Estado, as políticas públicas, a ciência, o jurídico, o administrativo, as mídias, entre outros, e suas paráfrases possíveis. Ao reunir trabalhos aí inscritos, este Simpósio configura-se enquanto um espaço de discussão dos efeitos da pesquisa em Análise de Discurso sobre a produção de práticas inovadoras de leitura do social e, em decorrência, um espaço em que se pode ter visibilidade de modos possíveis de o analista movimentar-se neste quadro teórico-metodológico. Nessa direção, a proposição deste Simpósio vai ao encontro do cerne da pesquisa em Análise de Discurso, que visa ao deslocamento da pergunta inócua “O que o texto quer dizer?” para a pergunta “Como um texto significa?”; deslocamento este que promove a inovação de lidar com o fato de que o sentido é inexato (ORLANDI) e de que, portanto, a prática da leitura implica lidar com o fundamento de que ler é saber que o sentido pode sempre ser outro (PÊCHEUX), mas não qualquer um. Compreende-se, então, que as pesquisas em Análise de Discurso mobilizam, de uma forma ou de outra, a pergunta “Como um texto significa?”, isto é, procuram compreender os modos possíveis de textualização do político (do movimento do sentido), buscando discernir aí sociedade e sujeito enquanto efeitos do processo de produção de sentidos. Para tanto, opera-se com o discurso enquanto objeto a partir do qual se considera, na superficialidade da formulação, suas condições de produção, os efeitos do interdiscurso, do esquecimento, da ideologia, do inconsciente, do silêncio, de modo a estabelecer os dispositivos analíticos específicos aos diferentes corpora. Dessa maneira, via análise dos processos parafrásticos e metafóricos que constituem a produção de sentidos, a prática de pesquisa, ensino e extensão em Análise de Discurso dá visibilidade à especificidade discursiva de diferentes objetos simbólicos e ao modo como aí se ligam indissociavelmente diferentes processos de subjetivação. Portanto, este Simpósio objetiva colocar em cena resultados de pesquisa que mostrem como a prática científica em Análise de Discurso possibilita práticas de intervenção no social, ao estabelecer um espaço ético de dizer/fazer ciência, a respeito da questão do sentido, considerando-a uma questão relativa à tríade sujeito, linguagem e história. Um espaço ético de trabalho – e compromisso político – com a linguagem que visa à restituição das condições de leitura da opacidade constitutiva dessas relações. Um espaço, portanto, em que se pode produzir e exercer responsabilidade – ética e política – com o (des)conhecimento.

Palavras-chave: análise de discurso; pesquisa; práticas inovadoras de leitura.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 50

Título do simpósio: Discursos paradoxais na trajetória de sentidos da política brasileira: eleições, golpe, impeachment

Coordenadores: Evandra Grigoletto (UFPE) e Helson Flávio da Silva Sobrinho (UFAL)

A proposta deste simpósio parte da cena política brasileira acerca do processo de afastamento da Presidente Dilma Rousseff, reeleita para o seu segundo mandato presidencial, em 2014, enfocando, sobretudo, as questões que intitulam esse simpósio: eleições, golpe, impeachment. Dada a importância desse acontecimento histórico e das discursividades que trabalharam e continuam a trabalhar esse acontecimento, pretendemos acolher estudos que analisem os embates desses discursos, pois observamos que, do resultado das eleições em 2014 até o momento atual, inúmeros dizeres circula(ra)m na mídia, nas redes sociais e nas falas cotidianas, com materialidades e posições as mais variadas possíveis. Interessa-nos, portanto, com bases nos pressupostos teórico-analíticos da Análise do Discurso Pecheutiana, olhar para o funcionamento desses discursos, observando suas condições de produção, os sujeitos que os produzem, seus efeitos de sentido e sua relação com a memória discursiva, bem como os modos de designar esse processo: golpe ou impeachment? Assim, partindo da noção de discurso como materialidade linguístico-histórica, como lugar de encontro entre uma atualidade e uma memória, entre a estrutura e o acontecimento (PÊCHEUX, 1988), poderão ser tomados, como eixos de análises neste Simpósio, desde o discurso político, produzido pelos políticos que aderiram, ou ao sentido do impeachment já ou ao não vai ter golpe, passando pelo discurso da mídia sobre esse processo e os comentários nas redes sociais dele decorrentes, até discursos humorísticos, entre outras materialidades que polemiza(ra)m o acontecimento e que deixam traços que podem revelar as implicações dessas práticas discursivas no real sócio-histórico, seus direcionamentos políticos e ideológicos e, principalmente, as filiações identificatórias dos sujeitos. Tomando tais discursos como objeto de análise, os trabalhos deverão privilegiar questões teóricas e metodológicas, tais como: Em que formações discursivas se inscrevem tais discursos? Esse acontecimento histórico produz-se como acontecimento discursivo? Que posições são ocupadas pelos sujeitos que se inscrevem em uma ou outra FD? Que palavras puderam e não puderam ser ditas? Quais sentidos foram e continuam sendo silenciados? Quais as tramas ideológico-discursivas que, mesmo em sua opacidade, revelam as Formações Ideológicas em jogo nessa conjuntura? Em que condições de produção se produzem tais discursos e como elas são determinantes no processo dialético do discurso? Como a memória intervém nesses processos de filiação/identificação com uns sentidos e não outros? Que memória se produzirá em torno desse acontecimento histórico? Quais os ecos e as consequências dessa discursividade na formação social brasileira? Aliadas a essas questões, propomos também pensar a relação do Estado com os partidos políticos e os interesses capitalistas; refletir sobre a trajetória das práticas significantes da esquerda no contexto nacional e mundial, bem como os processos de assujeitamento que fazem trabalhar a ideologia nos gestos de interpretação, o movimento de repetição e deslize, o excesso e a falta, o realizado e irrealizado, que tornam complexa a problemática dessa discursividade paradoxal. Pensar, sobretudo, os processos de resistência, revolta e revolução que foram colocados nessa conjuntura histórica e discursiva. Por último, mas não menos importante, pretendemos refletir sobre o compromisso teórico e político do analista de discurso diante desses acontecimentos. Desde já convidamos as/os estudiosos/as que desejem se aventurar nessa proposta temática, de caráter teórico e político, a se inscreverem com suas contribuições inquietantes neste simpósio.

Palavras-chave: discurso; acontecimento; política brasileira. 


SIMPÓSIO TEMÁTICO 51

Título do simpósio: Linguagem, conhecimento e tecnologia: tensões e deslocamentos

Coordenadoras: Ana Cláudia Fernandes Ferreira (UNIVAS) e Juciele Pereira Dias (UFF/LAS/CAPES-PNPD).

As relações entre linguagem, conhecimento e tecnologia têm sido objeto de muitas e variadas pesquisas científicas, tanto no campo dos estudos da linguagem, como em outros campos. Atualmente, o interesse por essas pesquisas está relacionado, por exemplo, a evidências de sentido sobre as necessidades de apropriação das novas tecnologias para as mais diversas atividades (burocráticas, didáticas, acadêmicas, cotidianas, etc.), bem como a problemas e soluções que advêm dessas demandas para os sujeitos em diferentes espaços na sociedade (em casa, no trabalho, na escola, na rua, etc.). De uma perspectiva da Análise de Discurso, desenvolvida a partir dos estudos fundadores de M. Pêcheux (1969, 1975, 1982) e E. Orlandi (1978, 1983, 1992, 1996), a produção dessas pesquisas deve ser pensada para além de suas finalidades práticas – em que o prático apenas significaria algo com utilidade visível, evidente e imediata –, já que quaisquer práticas são, incontornavelmente, práticas políticas, práticas de sentido que produzem efeitos sobre os sujeitos na sociedade e na história. Dessa perspectiva discursiva, tomamos a pesquisa linguística numa relação indissociável com a política e pretendemos, a partir disso, reunir trabalhos que se dediquem a estudar as relações entre linguagem, conhecimento e tecnologia, os quais podem estar articulados com diferentes campos de conhecimento, tais como História das Ideias Linguísticas, Saber Urbano e Linguagem, Psicanálise, Estudos da tradução, Literatura, Educação, História e Comunicação social. As bases teórico-analíticas da Análise de Discurso que fundamentam a proposta deste Simpósio tomam a linguagem, o conhecimento e a tecnologia não como entidades independentes, mas em suas (inter)relações, em seus sentidos  diversos, divididos, tensos e contraditórios, produzidos historicamente, pelo discurso. Tendo isso em conta, a linguagem é pensada em seu papel fundador na relação com o conhecimento e com a tecnologia, ainda que esse papel seja “apagado” pelo efeito de instrumentação da língua pela escrita e pelo efeito da linguagem como um mero instrumento de comunicação e de informação. Considerando, dessa maneira, que a comunicação e a informação são, antes de tudo, interpretação, ou seja, uma possibilidade, entre outras, de produção de sentido pelo/para o sujeito na sociedade e na história, delineamos os objetivos gerais deste Simpósio: proporcionar uma discussão profícua sobre a produção de conhecimento e tecnologia em relação ao papel fundador da linguagem em diferentes espaços de sentido, seja o espaço do saber pela língua(gem), seja o espaço do saber a língua(gem), seja o espaço do saber sobre a língua(gem). Com as discussões deste Simpósio, esperamos contribuir para a produção de tensões advindas das articulações da Análise de Discurso com diferentes campos de estudos, bem como de deslocamentos nos modos de compreender as injunções construídas nesses espaços de sentido em que se dão as relações entre linguagem, conhecimento e tecnologia.

Palavras-chave: discurso; linguagem, conhecimento e tecnologia; sentidos.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 52

Título do simpósio: A interpretação de texto como um gesto político do professor de língua portuguesa

Coordenadoras: Solange Maria Ieda Gallo (UNISUL) e Suzy Maria Lagazzi (UNICAMP)

Nosso objetivo neste simpósio é discutir a interpretação de textos como um gesto sempre presente e sempre político, atentando para suas consequências na Escola. Ao realçar a relação política entre texto e interpretação, retomamos a discussão sobre autoria na perspectiva da Análise do Discurso materialista, chamando a atenção para o (des)encontro entre interpretações. Interessa-nos retomar as marcas desse (des)encontro na formulação textual, tentando compreender as posições de sujeito em jogo. Em outras palavras, a interpretação produzida na leitura de um texto deve relacionar-se com a interpretação “sempre-já” posta na escritura do autor. Ou seja, o sujeito se ancora em um gesto político ao ler e interpretar um texto, na medida em que sua interpretação está em relação com outras interpretações possíveis, marcadas na formulação desse texto. Este simpósio justifica-se na medida em que se propõe a discutir esse processo, que é extremamente significativo na prática escolar. É preciso que o professor compreenda essa dimensão política da interpretação, dando consequência ao processo de autoria de seus alunos. A interpretação de textos na Escola deve, necessariamente, levar em conta esse gesto político, constitutivo dos textos. Tomamos o texto enquanto um efeito do discurso. Esta concepção é importante para que a unidade textual imaginariamente construída possa ser trabalhada no gesto da interpretação, gesto que se dá na composição de diferentes materialidades significantes em condições históricas determinadas. Vale ressaltar que na imbricação entre diferentes materialidades o político se marca em diferentes formulações e tem na contradição um processo estruturante das relações de sentidos. Por isso, buscar o equívoco nos muitos modos de formulação textual é um modo produtivo de dar visibilidade ao (des)encontro das interpretações. Importa-nos analisar, discursivamente, textos diversos, para mostrar os gestos de interpretação de seus autores, neles materializados e, consequentemente, a dimensão política desses textos quanto à interpretação desses autores e também no contraponto de outras leituras possíveis. Interessam-nos textos que se inscrevem em diferentes discursos – no discurso fílmico, no discurso pedagógico, no discurso jornalístico, entre outros –, para que possamos, num primeiro momento, compreender a posição específica assumida pelo sujeito autor em relação aos saberes ali instituídos. Essa posição de sujeito constitui-se em um gesto político de interpretação desses saberes e esse gesto confere ao sujeito a função de autoria, uma função que se desdobra entre a responsabilidade e a responsabilização. Num segundo momento, explicitaremos os pontos de equívoco nas formulações textuais, para que a dimensão política dos textos em análise fique compreendida no (des)encontro de leituras possíveis. A relevância da perspectiva discursiva para a interpretação de textos na Escola tem relação com a qualificação da prática de leitura e interpretação feita pelo professor de língua portuguesa e suas consequências para a assunção da autoria dele e dos seus alunos, nessa prática. Este simpósio tem como objetivo discutir a dimensão política da prática de leitura por meio da apresentação de análises discursivas, congregando subsídios relevantes para que o professor de língua portuguesa tenha condições de se inscrever politicamente nesse processo.

Palavras-chave: interpretação de texto; discurso; gesto político do professor. 


SIMPÓSIO TEMÁTICO 53

Título do simpósio: Os (multi)letramentos e ensino de língua portuguesa na contemporaneidade: singularidades, desafios e estratégias facilitadoras para o aprendizado da escrita

Coordenadora: Fernanda Maria Almeida dos Santos (UFRB)

Na contemporaneidade, o desenvolvimento e o uso constante das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) têm modificado muitas atividades da vida humana e desencadeado processos de ensino e aprendizagem cada vez mais interativos, dinâmicos e plurais, exigindo dos cidadãos diferentes habilidades de leitura e de produção escrita inter-relacionadas à multiplicidade de discursos, de textos, de sujeitos, de culturas e de sociedades globalizadas, conectadas por diversos meios de comunicação. Desse modo, um estudo atual acerca dos métodos de aprendizado da leitura e da escrita na sociedade hodierna não pode deixar de considerar as implicações das TIC no desenvolvimento das práticas de (multi)letramentos.  No entanto, observa-se que – ao mesmo tempo em que as Tecnologias da Informação e Comunicação (e, mais especificamente, as Tecnologias Digitais) podem operar como uma importante interface pedagógica no processo de aquisição da escrita, intensificando o desenvolvimento de competências textuais, enunciativas, procedimentais e linguísticas dos indivíduos – o uso dessas tecnologias no contexto escolar tem sido obstaculizado, tanto por fatores de ordem infraestrutural, quanto por possíveis lacunas na formação docente nesse âmbito e/ou pelas dificuldades de se considerar as individualidades dos sujeitos no processo de aprendizado. Sendo assim, o presente simpósio pretende reunir pesquisadores que se dedicam a investigar diferentes aspectos referentes à aprendizagem da escrita da Língua Portuguesa, na perspectiva dos (multi)letramentos, de modo a promover um amplo espaço de discussão e de articulação entre as atuais propostas de aquisição da escrita e a pedagogia dos (multi)letramentos. De modo mais específico, visa fomentar análises acerca das singularidades, desafios e/ou estratégias facilitadoras para o aprendizado do português escrito, seja como primeira língua – L1 (para indivíduos ouvintes), seja como segunda língua – L2 (para sujeitos surdos). Desse modo, o simpósio objetiva contemplar trabalhos que conciliem os postulados de Lévy (1993; 1996; 1999) sobre tecnologias e a pedagogia dos (multi)letramentos, de Cope e Kalantzis (2000), com os estudos/análises de Araújo (2003; 2007), Coscarelli (2006; 2007), Freire (2003), Frade (2007), Ferreiro (1990; 2001), Ferreiro e Teberosky (1986), Kleiman (2008), Marcuschi (2002; 2004), Oliveira (2006), Ribeiro (2008), Rojo (2009; 2012), Soares (2003; 2009), Tfouni (2006), Xavier (2005) e outros, sobre (multi)letramentos e aquisição da escrita em ambientes virtuais para sujeitos ouvintes. Além disso, este simpósio visa englobar pesquisas que estejam embasadas nas discussões de Dechandt (2006), Fernandes (2003; 2008), Goldfeld (2002), Guarinello (2007), Quadros (1997), Salles (2004) e Thoma e Lopes (2005), entre outros, sobre letramentos e aquisição de língua portuguesa como L2 para sujeitos surdos. Ademais, o simpósio pretende selecionar estudos que tratem dos problemas, conflitos e desafios relacionados ao aprendizado da escrita por surdos e/ou ouvintes inseridos em contextos digitais. Espera-se, por meio dessas discussões, propiciar reflexões que contribuam com os profissionais da Educação Básica e que possam, também, fomentar novas investigações sobre o tema.

Palavras-chave: (multi)letramentos; singularidades; aprendizado.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 54

Título do simpósio: Consciência linguística, leitura e ensino

Coordenadores: Ronei Guaresi (UESB) e Vera Wannmacher Pereira (PUCRS)

Neste simpósio serão discutidos estudos concluídos ou em fase de conclusão que contemplem a relação entre consciência linguística e/ou processamento da leitura e ensino de língua materna. Podem-se citar vários desafios que se impõem ao estudante no processo de aprendizado da leitura e da escrita, entre os quais: a apropriação do conhecimento relativo ao código; a leitura compreensiva e o uso competente do conhecimento de língua em práticas sociais de leitura e de escrita. No que compete ao ensino formal, achados científicos oriundos de diferentes áreas de conhecimento – Linguística, Psicolinguística, Psicologia Cognitiva, Aquisição da Linguagem, entre outras – sugerem importante relação entre experiência em leitura, atividades pedagógicas centradas na consciência linguística e desempenho no aprendizado da leitura e da escrita. A experiência em leitura colabora na automatização do conhecimento relativo ao código e libera recursos cognitivos para o acesso ao significado; ademais, estudos que investiguem o processamento cognitivo da leitura podem representar impacto pedagógico. Consonantemente, a consciência linguística promove no aprendiz a reflexão sobre o funcionamento da língua nos diferentes níveis linguísticos e, igualmente, colabora à apropriação proficiente do nosso sistema alfabético de escrita. Nesse sentido, na intenção de balizar as discussões sobre cada tópico, destacamos algumas publicações no âmbito da consciência linguística e ensino e no do processamento da leitura e ensino. Sobre conceitos de consciência: Baars (1993) e Dehaene (2009); consciência linguística: Spinillo; Mota; Correa (2010) e Barreira e Maluf (2003); consciência fonológica: Gombert (1992); discussões sobre consciência textual: Pereira (2010) e Gombert (1992); consciência sintática: Smith (2003). A respeito do processamento da leitura: Scliar-Cabral (2008; 2009); Smith(1993); compreensão leitora: Goodman (1991) e Pereira (2006; 2015). Essas discussões permitem-nos acreditar que a mudança do cenário preocupante do ensino de língua materna no Brasil, intrigantemente desvelado pelo PISA (2012), pode repousar num ensino centrado nas experiências em leitura e na consciência linguística. Um ensino qualificado da língua materna colaborará para o estabelecimento de condições equitativas de formação acadêmica e, consequentemente, de exercício da cidadania. Aceitam-se, portanto, estudos que discutam tópicos que, de alguma forma, versem sobre os temas acima descritos.

Palavras-chave: consciência linguística; leitura; ensino.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 55

Título do simpósio: Semântica do acontecimento: análises enunciativas das designações

Coordenadoras: Fabiana Claudia Viana Borges (Centro Universitário Moura Lacerda) e Rosimar Regina Rodrigues de Oliveira (UEMS)

Os espaços enunciativos se dão pelo confronto de sujeitos, saberes, políticas, identidades, silenciamentos, e são nesses espaços que os acontecimentos de linguagem se configuram, por uma temporalidade específica, constituindo o seu presente, ao recortar um memorável de enunciações e projetar uma futuridade, uma latência de futuro, em que se encontram os efeitos de sentidos produzidos pelas interpretações. Assim, este simpósio se propõe como um espaço de discussão de trabalhos pautados na Semântica do Acontecimento, desenvolvida a partir de Eduardo Guimarães (2002, 2005), que traz no seu escopo os estudos da enunciação, do acontecimento do dizer, em que a significação é vista como perpassada pela história e pelo político, sinalizando o funcionamento da língua. Para compor este simpósio, serão aceitos trabalhos que apresentem análises do funcionamento semântico-enunciativo das formações nominais, que consideram a nomeação como um acontecimento de linguagem (GUIMARÃES, 2002, 2004, 2007, 2008, 2009, 2011), análise do funcionamento da língua pelos processos interculturais estabelecidos pelas línguas de contato, bem como análises de designações que predicam/determinam o nome, sejam designações que referem ao “índio”, considerando os modos de significação em relação ao indígena como parte de um funcionamento imaginário, sejam designações referentes às comunidades quilombolas, verificando como a circularidade com que nomes que remetem à ancestralidade africana se dá entre os habitantes dessa comunidade, ou sejam designações funcionando em documentos oficiais, a saber, atas de nomeação e requerimento de posse, formulários para diferentes fins, emissão de documentos, certidões, coleta de dados, que orientam as práticas no espaço urbano e se coloca como um controle da memória, pela imagem, numa relação do sujeito com a história, bem como funcionando em documentos que se colocam como espaço de diretrizes para a educação, materiais didáticos, PCNs, Lei de Diretrizes e Bases, os quais (im)põem práticas que se configuram na sala de aula. Para essas análises, é considerado como dispositivo analítico o Domínio Semântico de Determinação, proposto por Guimarães (2004), seja por relação de articulação, relação semântica de contiguidade, ou por reescrita, a relação de redizer, na integração da enunciação. Analisar o funcionamento das designações nessas diferentes materialidades permite evidenciar o movimento semântico que nomeia, tal como um procedimento de linguagem, como marco fundante das narrativas que dão existência a algo no mundo, o lugar do Locutor como lugar político e social da enunciação, dado por processos de identificação que significam, pelo agenciamento enunciativo (GUIMARÃES, 2002, 2011), na assunção da palavra e pela constituição dos lugares de dizer.

Palavras-chave: acontecimento; designação; domínio semântico de determinação. 


SIMPÓSIO TEMÁTICO 56

Título do simpósio: Discurso urbano: redes simbólicas, laços ficcionais, narrativas sociais

Coordenadores:  Maurício Beck (UESC) e Raphael de Morais Trajano (Faculdade de Letras da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques)

Michel Pêcheux, em Semântica e Discurso (1975), afirmou que a revolta é contemporânea à linguagem, o que conduz ao conhecimento de uma abertura constitutiva do processo de significação. É do nonsense que os (outros sentidos) advêm. E é atravessada por uma teoria do sujeito de base psicanalítica que a Análise de Discurso, trabalhando no entremeio entre a Teoria do Discurso, a Linguística e o Materialismo Histórico, passa então a pensar a resistência e a revolta como possibilidade, dada a cisão do sujeito, desde então marcado pela contradição, quando de sua inscrição no Simbólico e no Histórico. Teorizando nossa contemporaneidade histórica, Orlandi formula as noções de espaço urbano, de narrativas da cidade, com base na memória discursiva que engendra sentidos e sujeitos, enquanto habitantes, trabalhadores e amantes na/da cidade. Cidade ou metrópole cuja pulsação de sentidos se efetiva na rua e nas redes sociais. Considera-se, pois, as redes sociais como espaços fundamentalmente urbanos (ORLANDI, 2010), em que se pode observar o modo histórico de constituição, formulação e circulação dos sentidos e de sujeitos que assumem posições discursivas situadas na tensão entre a reprodução de e a resistência a sentidos dominantes. Desse modo, compreende-se que a produção dos sentidos e os posicionamentos dos sujeitos estão fortemente relacionados às bases de constituição dos discursos. Assim, pode-se analisar discursivamente o que concerne às reproduções e deslocamentos na materialidade desse real concreto urbano em relação com o simbólico, a fim de indagarmo-nos, no fluxo de e quiçá para além de Orlandi (2006), sobre como tais reproduções e deslocamentos significam em espaços que, ao serem silenciados, respondem significativamente. Este simpósio tem como objetivo reunir pesquisas que tratem da noção de sujeito e de sentido em relação a diferentes abordagens teórico-analíticas à luz da Análise de Discurso de base materialista. As propostas podem/devem tratar da noção de sujeito do discurso – habitante de sítios de significação – sobredeterminado pela cidade, esta entendida conforme a noção de espaço urbano que Orlandi (1998) teorizou, bem como abordar o efeito sujeito no/pelo espaço digital, pelas redes sociais, pelas narrativas em que a cidade e seus habitantes se significam como personagens em uma trama de sentido entre o “ficcional” e o “factual”. Por fim, almeja-se abrir brechas por entre as quais possam interpenetrar abordagens que ocasionem discussões e críticas (à ideologia dominante e suas contradições), através de trabalhos comprometidos com a necessidade de levar a público análises e/ou projetos em andamento que tratam da relação dos sujeitos com as redes simbólicas (e não tão somente virtuais), laços ficcionais (porque arbitrários) e narrativas sociais (porque interpelam leitores ou espectadores) no seio da produção de sentidos. Destarte, mais do que alimentar um círculo que reproduz a evidência ideológica do trabalho de pesquisa como pressuposto para a fabricação de respostas prontas e conclusivas, busca-se privilegiar o compromisso da ciência com a produção de questões e o relançar de problemas, os quais nos permitam avançar em reflexões imprevistas e imprescindíveis à compreensão das relações entre o sujeito e o mundo via linguagem.

Palavras-chave:  discurso urbano; sujeito; sentidos.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 57

Título do simpósio: Análise do discurso, formação docente e práticas de ensino de língua e literatura

Coordenadoras: Andréa Rodrigues (UERJ) e Rívia Fonseca (UFRRJ)

O simpósio aborda de que modo práticas de ensino de língua e/ou literatura podem ser pensadas numa perspectiva discursiva que se ampare no quadro teórico da Análise de Discurso (AD) desenvolvida na França por Pêcheux e colaboradores e no campo brasileiro da AD (cf. INDURSKY, 2006). Uma vez que o lugar da AD, desde seu início, é o entrelugar, que se instaura “na contradição dos três campos de saber – a linguística, a psicanálise e o marxismo” (ORLANDI, 2006, p.14), é na articulação entre língua, sujeito e história que os discursos produzem e fazem sentido.  Assim, pensar a relação entre a AD e o ensino é promover um deslocamento dos lugares tradicionais em que os sentidos para a escola e os seus sujeitos têm sido produzidos. Venturini (2011) destaca que professores e alunos são sujeitos do fazer pedagógico, o que sustentaria a interlocução entre a AD, como disciplina de entremeio, e o ensino, como prática política. Estas duas instâncias do fazer político podem dialogar e, assim, nessa relação, contribuir para uma reflexão não ingênua e não naturalizada dos procedimentos de ensino de língua e literatura. Indursky também destaca as importantes relações que podem ser estabelecidas entre AD e ensino, mostrando como é possível promover reflexões sobre o funcionamento discursivo da língua, levando em conta os diferentes modos de produção de sentidos de uma determinada materialidade discursiva em análise, de modo a criar, com os alunos, “condições de trabalhar com a língua, seja escrevendo, seja lendo, seja, ainda, interpretando” (INDURSKY, 2010, p.339). Observa-se, também, que às práticas docentes, amparadas, hoje, pelo discurso totalizante e unificador, materializado nos documentos oficias, nas instruções curriculares e nas grades dos cursos de licenciatura, escapa o uso de dispositivos teórico-metodológicos que permitam ao professor enxergar a si mesmo e a seus alunos como sujeitos que podem ser afetados pela ordem do diferente, do sentido que sempre pode ser outro (BERTOLDO, 2013). Considerando que professores de língua e literatura devem ter uma formação que contemple o conhecimento de diferentes teorizações sobre a língua e seu ensino, torna-se relevante também refletir sobre processos de formação docente que incluam em suas discussões as contribuições que a comparação entre as diferentes concepções de língua e discurso – inclusive aquelas que a AD propõe - pode trazer, por exemplo, para a prática da análise linguística em sala de aula na educação básica (cf. INDURSKY, 2010). O simpósio proposto pretende, assim, reunir trabalhos que abordem, a partir da mobilização de dispositivos teóricos da AD, pesquisas sobre práticas de ensino de língua e/ou literatura realizadas na educação básica; materiais didáticos voltados para o ensino de língua e/ou literatura; documentos oficiais sobre o ensino de língua e/ou literatura; políticas de formação docente; propostas curriculares para o ensino de língua e/ou literatura. A partir da apresentação e discussão dos trabalhos, o simpósio tem como objetivos gerais promover o debate sobre a interlocução entre AD e ensino de língua e literatura, contribuindo assim para refletir sobre o relevante papel da AD para as políticas de pesquisa e ensino.

Palavras-chave: análise do discurso; formação docente; ensino.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 58

Título do simpósio: Circulações do político: mídia, estado, ciência, educação

Coordenadora: Telma Domingues da Silva (UNIVAS)

A proposta deste simpósio é discutir o político em funcionamento na sociedade, produzindo sentidos nas diversas formas de circulação: isto é, Mídia, Estado, Ciência e Educação são aqui referidos como lugares próprios de constituição de discursos, que promovem, por sua vez, diferentes modos de circulação dos discursos políticos. Na perspectiva da análise de discurso, compreendemos o político como “divisão de sentidos” – ou seja, os sentidos têm direção, dadas as relações de força derivadas da forma da sociedade na história (Orlandi, 1998), o que pressupõe que a disputa (pelos sentidos) é constitutiva do linguageiro, apresentando-se como tensão ao mesmo tempo para a estabilização e para a desestabilização dos sentidos, e abrindo para a formulação de outros sentidos possíveis. Na sociedade democrática neoliberal, funciona o imaginário de uma circulação livre dos sentidos, bem como o imaginário de que a circulação dos produtos e de sua publicidade nada tem a ver com o político. Julgamos importante explorar analiticamente tais imaginários, buscando compreender a sua constituição e o seu funcionamento e, portanto, os efeitos de sentido que são produzidos a partir daí. Interessa, sobretudo, compreender como se sustentam e como são produtivos nas relações sociais, em sua diversidade. No sentido de uma estabilização, a Mídia tem funcionado historicamente na produção de consensos. Em torno dessa questão que se apresenta através da Mídia, são muitas as possibilidades: por exemplo, pode-se hoje examinar quanto, como ou quando as redes refletem e ecoam (ou não) os consensos produzidos na Mídia tradicional; ou pode-se investigar a enorme presença das imagens na argumentatividade política, através de charges, fotografias etc. A Ciência e a Educação, por sua vez, podem ser pensadas através de uma articulação cada vez mais direta com o mercado, mantendo-se o Estado como legitimador dessas relações. Desse modo, podemos pensar na sociedade atual e, nela, o funcionamento de discursos que inscrevem a legitimidade ou não dos governos, a partir da produção de consensos, de uma legitimidade posta na Mídia e, nela, a produção de imagens públicas. Observa-se ainda que fazem parte desse contexto atual, de manutenção de uma imagem de “circulação livre” de informações, determinados gestos de censura, como constitutivos do próprio projeto de uma sociedade globalizada, informatizada. Propostas como “Escola sem Partido” ou a interdição do tema de gênero em documentos do poder público para a Educação podem ser compreendidos como uma política de silenciamento (Orlandi, 1996), nessa direção. Consideramos, assim, que há um efeito ideológico, materializado no discurso, em que se tem cada vez mais a “gestão”, cada vez menos o político (no lugar que lhe seria próprio), em um movimento conexo que responde como “regulador” (do) social. Essas questões nos levam a compreender, em certo sentido, como as relações de poder e de (re)organização da democracia neoliberal se dão, produzindo efeitos de evidência de: autonomia, consenso e de responsabilidade para o sujeito do discurso. Assim, no contexto desse amplo quadro, perguntamo-nos, enfim, o que esses elementos podem nos dizer sobre a interpelação do sujeito na contemporaneidade.

Palavras-chave: globalização; discurso político; sujeito contemporâneo.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 59

Título do simpósio: Os multiletramentos na sala de aula: propostas de aplicação

Coordenadoras: Ana Maria Pereira Lima (MIHL/UECE) e Lívia Márcia Tiba Rádis Baptista (UFBA)

As tecnologias estão cada vez mais acessíveis e consolidando-se como experiências vividas pelas pessoas, engajando-as em uma infinidade de práticas. Isso nos fez investir no emprego das ferramentas e dos gêneros textuais nelas recorrentes a fim de vislumbrar a potencialidade para fins didáticos, daí os multiletramentos como uma proposta de aplicação. O objetivo desse simpósio circunscreve-se na possibilidade de socializar práticas de letramento digital em atividades presentes nas aulas de língua portuguesa e de línguas estrangeiras modernas que se utilizam das tecnologias digitais, trazendo à tona a necessidade de efetivação dos multiletramentos. O que significa oportunizar discussões teóricas e analíticas sobre multiletramentos e sobre os gêneros textuais que emergem ou mesmo que circulam nos ambientes digitais que desencadeiam as práticas de letramento multiculturais e multissemióticas, enfocando a perspectiva pedagógica que pode ser depreendida dessa relação. A sugestão para este simpósio representa uma ocasião para a divulgação de resultados de pesquisas, de análises e de descrições realizadas sobre os diversos gêneros textuais e sobre práticas de letramento que dependem dos multiletramentos para se realizarem, submetendo-os à apreciação crítica dos pesquisadores presentes no evento, de maneira que oportunize novas perspectivas concernentes à compreensão da necessária discussão e potencialidade das práticas de multiletramentos na sala de aula de línguas materna e estrangeiras.  Desse modo, serão aceitas propostas integrantes de áreas congêneres das aqui propostas que se situem nos princípios teórico-metodológicos de teorias que abordem os gêneros textuais (BAKHTHIN, 2003; BAZERMAN, 2005, 2007; MARCUSCHI, 2005) e os multiletramentos (COPE; KALANTZIS, 2000; DIONÍSIO, 2006; LEMKE, 2010; ROJO; MOURA, 2012). É importante destacar que as propostas devem visar a investigar o funcionamento dos gêneros textuais, nas atividades em que os multiletramentos são exigidos, além de estabelecer uma inter-relação com a cultura, com as comunidades discursivas e com as aplicações em contexto escolar. É relevante que os trabalhos promovam reflexões sobre os contextos sociais e os meios de comunicação em que os gêneros textuais e os multiletramentos estejam presentes, de maneira a promover uma articulação entre as dimensões verbal e sócio-histórico-cultural dos textos e dos diversos tipos de letramentos. Desse modo, acreditamos que os trabalhos propostos à coordenação deste simpósio possam contribuir e explicar o caráter inovador de inserção de práticas sociais que contemplem os gêneros textuais capazes de acionar os multiletramentos, alinhando o trabalho docente às demandas contemporâneas.

Palavras-chave: multiletramentos; práticas de letramento digital; gêneros textuais; ensino de línguas.


SIMPÓSIO TEMÁTICO 60

Título do simpósio: Aspectos gramaticais da Língua Brasileira de Sinais

Coordenadores: André Xavier (UFPR) e Angélica Rodrigues (UNESP)

Neste simpósio, pretendemos congregar pesquisas que tenham como objetivo a descrição e análise da Língua Brasileira de Sinais, com foco em sua gramática. São bem-vindos trabalhos de diferentes bases teóricas (formais ou funcionais) e em qualquer nível de análise linguística. Uma vez que tem crescido no Brasil o número de pesquisas relacionadas à explicitação do funcionamento gramatical da Língua Brasileira de Sinais, o ensejo, neste simpósio, é fomentar a continuidade e o aprofundamento da investigação linguística iniciada em meados dos anos 60, no Brasil e no mundo, que promoveu a legitimação das línguas de pessoas surdas como línguas naturais e humanas. O simpósio também visa ao diálogo sobre a possível construção de modelos de gramáticas de línguas de sinais, que não se espelhem inteiramente nas gramáticas pedagógicas de línguas orais, mas que possam ser organizados de forma a disponibilizar o conhecimento gramatical da língua também para os seus usuários.

Palavras-chave: Língua Brasileira de Sinais; descrição e análise; gramática.