Mesas Redondas

Dia 1
06 maio 2019
Dia 2
07 maio 2019
Dia 3
08 maio 2019

Nos Limites do Discurso

Participantes: Jean-Jacques Courtine & Monica Zoppi

Vagas: 650

Os delírios nos limites do discurso
Paris, capital da loucura, no fim do século XIX

Paris, último quarto do século XIX… Com a urbanização acelerada da capital e o aumento massivo de sua população, novas ansiedades começam a emergir. O alcoolismo se torna arrasador e as degenerações espreitam. « Não há mais loucos hoje em dia do que havia antigamente? », era assim que o Dr. Paul Garnier formulava sua inquietação em sua obra A loucura em Paris (1890). Ele ocupa uma posição estratégica para responder à questão: Garnier é o médico-chefe da Enfermaria Especial do Depósito da Delegacia de Polícia, para onde são transportados todos os insanos apreendidos nas ru as e calçadas da capital. E sua resposta àquela questão é afirmativa: a superpopulação em uma metrópole de massas compactas e flutuantes e de indivíduos anônimos faria eclodir novas loucuras urbanas. Loucuras essas que seriam até então completamente desconhecidas. A cidade produziria, portanto, a loucura, ao passo em que a psiquiatria observaria, transcreveria, identificaria e classificaria os discursos dos loucos.

Poderíamos permanecer nesse ponto e ver aí somente um episódio clássico da longa história do controle dos alienados. Mas há uma outra maneira de ler esse quadro das misérias urbanas, no qual os discursos determinam fundamentalmente as relações psiquiátricas. Há outra maneira de ouvir as vozes desses sujeitos perdidos, quando elas atravessam a superfície do discurso psquiátrico. Nos limites deste último, em suas cavidades e em suas margens, uma outra cidade, então, se desvela. Porque se a cidade engendra a loucura, a loucura produz a cidade: uma imagem singular da capital emerge desses delírios. Ela compreende uma geografia e uma monumentalidade, ela abriga seus céus e seus infernos. Ela compreende ainda suas zonas sombrias, mas também seus percursos, suas linhas de fuga, suas errâncias e suas divagações… Já não teria, enfim, chegado o tempo, para os que se preocupam em analisar discursos, de explorar o continente sombrio da loucura e de restituir os sentidos históricos às falas que, a despeito de tudo o que sofreram os loucos, conseguiram chegar até nós?

Jean-Jacques Courtine

Professor Visitante, Queen Mary, Universidade de Londres
Professor Emérito da Universidade da Califórnia (Santa Bárbara) e Nova Sorbonne (Paris III)
Professor honorário da Universidade de Auckland (Nova Zelândia)

 

Transformações da fala pública:
do porta-voz autorizado aos tuítes do filho amado

Nessa palestra desenvolvemos uma reflexão sobre as inflexões da fala pública hoje, focando nossa descrição no funcionamento das formas históricas de enunciação e na formulação e circulação de enunciados no campo da prática política na sociedade brasileria atual. O exercício de falar em público é, conforme Courtine e Piovezani (2015), um fato social e um objeto privilegiado da materialização e do desenvolvimento das relações sociais e das lutas pelo poder. Assim, os instrumentos e os rituais que estão envolvidos na produção da fala pública possuem singularidade histórica e se modificam conforme as condições de produção da enunciação.
Na nossa reflexaõ damos destaque ao funcionamento discursivo das novas tecnologias de linguagem, em particular às redes sociais, consideradas como dispositivos digitais de formulação e circulação da fala pública. Analisamos seus efeitos sobre a enunciação política na conjuntura atual, considerando os impactos de uma prática de deslocalização tendencial do sujeito enunciador (Pêcheux, 2016 [1981]) que eles propiciam. Propomos que há um desregularização dos rituais enunciativos que configuram a fala pública, por efeito do desdobramento e sobreposição das instâncias autorizadas e não autorizadas que colocam em circulação os enunciados políticos. Nesse sentido, consideramos o funcionamento discursivo da pós-verdade e das fake-news como solidários ao processo de deslocalização tendencial do sujeito enunciador, ao produzir conjuntamente o desregramento sistemático dos regimes de verda-de e de legitimação dos sentidos.

Mónica Graciela Zoppi Fontana (UNICAMP-CNPQ)

O sim, o não, o talvez e o nem tanto, na gramática da língua

Participantes: Maria Helena Moura Neves, Carlos Faraco, Marcos Bagno

Vagas: 100

Em dois territórios esta fala trata a gramática da língua em uso, ambos assentados na visão de que as lições de ‘gramática’ não conseguem bem resolver-se explanatoriamente se a descrição do analista oferecer rótulos categoriais invariavelmente unifuncionais. Na primeira amostra propõe-se que, sem nunca ser desmentida a regulação sistêmica da língua, seu uso faz ver, entretanto, que é no jogo combinatório dos traços categoriais dos termos ocorrentes nos diferentes pontos do enunciado que se define a categoria específica. Na segunda amostra – mais discursivamente implicada – desta proposta de uma análise linguística não comprometida com fixidez de limites, descortina-se o próprio território da ‘polarização’: trata-se, em princípio, de um jogo binário de sim / não, entretanto a operação discursiva de transitar entre os polos compõe todo um espaço intervalar de produção de sentido que resulta na montagem, por exemplo, de nãos que não negam, de comparações que relativizam cotejos e de modalizações que trazem o falante para o palco das relativizações (nunca comprometido o sistema da língua, insista-se).

L2 Desenvolvimento da Fala: Desafios e Proposições

Participantes: Xinchun Wang & Ubiratã Alves

Vagas: 650

Aprendizado Fonético-Fonológico em L2: Percepção, Produção, e Treinamento
Xinchun Wang

Os aprendizes adultos de uma segunda língua (L2) geralmente apresentam dificuldades no que diz respeito à produção e à percepção dos sons da língua-alvo. Apesar destas dificuldades, muitas pesquisas têm evidenciado melhoras significativas em termos de percepção e produção a partir de uma maior exposição à L2, além de demonstrarem que a habilidade de aprender sons não-nativos se mantém intacta ao longo de toda a vida do aprendiz (Flege, 2007). Estudos prévios também já forneceram evidências de que o treinamento fonético em laboratório pode ser eficiente tanto para a percepção quanto para a produção dos sons da fala (Bradlow et al, 1997). Nesta apresentação, após uma breve introdução às atuais teorias sobre aprendizado de L2, daremos enfoque às práticas correntes de treinamento de percepção e produção dos sons de L2, desenvolvidas a partir de recursos computacionais. Em uma série de estudos nas últimas duas décadas (Wang, 2008, 2012, 2013, Wang & Munro, 2004), tenho usado uma série de métodos distintos para treinar aprendizes adultos de L2 a aprender as oposições vocálicas no Inglês e os contrastes tonais do Mandarim. Nesta fala, serão discutidos dois diferentes paradigmas de treinamento, visando a comparar a eficiência de cada um deles: Técnicas de Esmorecimento do sinal acústico e Treinamento Fonético de Alta Variabilidade (HVPT – do inglês, High Variability Perceptual Training). Os achados destes estudos demonstraram que as Técnicas de Esmorecimento com o uso de vogais com sinal manipulado em combinação com uma técnica de HVPT com múltiplos locutores mostrou-se eficaz para o aprendizado das vogais do Inglês, com resultados que se mantiveram em um teste de retenção três meses mais tarde. No aprendizado dos tons do Mandarin, os resultados do uso individualizado do paradigma de HVPT no aprendizado foram considerados comparáveis aos de um treinamento de percepção e produção com estímulos de áudio e vídeo. Em um treinamento subsequente, o uso de estímulos auditivos e visuais no treinamento resultou em uma melhora significativa na produção dos tons do Mandarim no nível da frase.

Desenvolvimento Fonético-Fonológico em L2: Contribuições para as áreas de Linguística Formal e Aplicada
Ubiratã Kickhöfel Alves (UFRGS, CNPq, Brazil)

Nos últimos vinte anos, ao se considerar o cenário brasileiro de investigações, a área de Aquisição Fonético-Fonológica de L2 tem demonstrado um crescimento considerável. Tal crescimento pode ser verificado não somente no aumento do número de estudos publicados, mas também no que concerne à diversidade de questões de investigação e modelos teóricos sobre os quais tais estudos se alicerçam. A partir deste cenário, nesta apresentação pretendemos (i) caracterizar os estudos da área de Aquisição Fonético-Fonológica de L2 desenvolvidos no Brasil; (ii) discutir como tal área de caráter interdisciplinar não somente recebe contribuições, mas também fornece insumos aos estudos de Fonética e Fonologia, Psicolinguística e Ensino de L2. Para que sejam atingidos tais objetivos, iniciaremos nossa fala apresentando um panorama geral sobre os principais estudos da área desenvolvidos no Brasil nos últimos vinte anos, de modo a discutirmos os seus interesses de pesquisa, desafios e direcionamentos futuros. A partir de tal exposição, concentraremos a discussão nos estudos levados a cabo por nosso grupo de pesquisa – Labico (Laboratório de Bilinguismo e Cognição), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Apresentaremos os principais resultados e contribuições das pesquisas que temos desenvolvido sobre (i) a discussão acerca dos modelos perceptuais de L2 e a relação percepção-produção (Alves; Silva, 2016; Perozzo; Alves, 2016; Perozzo, 2017); (ii) o fenômeno de atrito fonético-fonológico na L1 (Kupske, 2016; Kupske; Alves, 2016; Schereschewsky; Alves; Kupske, 2017, Pereyron, 2017; De Los Santos, 2017; Schereschewsky; Alves; Kupske, no prelo; Alves; Schereschewsky; Luchini, no prelo); (iii) o papel da instrução explícita e do treinamento perceptual, bem como o desenvolvimento de materiais de ensino de pronúncia de L2 (Alves; Luchini, 2017; Alves; Luchini, no prelo; Alves; Brisolara; Perozzo, 2017). A partir da discussão destes três aspectos, pretendemos deixar mais claras as contribuições prestadas pelos estudos de percepção e produção dos sons da L2 a outras áreas da Linguística, além de convidar novos pesquisadores a desenvolver seus trabalhos neste campo de investigação.

O papel da Contexto na Linguística nos últimos 32 anos

Participantes: Ataliba de Castilho, Jaime Pinsky e Jair Barbosa da Silva

Vagas: 100

Para que as pesquisas dos linguistas brasileiros fossem entendidas e valorizadas, precisaríamos dispor de uma editora dirigida por um dos nossos, ou seja, por um professor e pesquisador universitário. Esse “sonho de consumo” se concretizou em 1987, quando o Prof. Jaime Pinsky, Titular aposentado de História Antiga e Medieval da Universidade Estadual de Campinas, fundou a Editora Contexto. A partir desse ano, e em diferentes perspectivas, a Editora Contexto divulgou o que de melhor a Linguística brasileira vem produzindo.

Abordagens formais à sintaxe da língua de sinais: o impacto da modalidade

Participantes: Roland Pfau & Ronice Quadros

Vagas: 650

Depois de mais de 50 anos de pesquisa em linguagens gestuais de todo o mundo, não há mais dúvidas de que as línguas de sinais são línguas naturais, totalmente semelhantes às línguas faladas em todos os níveis de descrição linguística. Dado que as abordagens formais à estrutura da linguagem usualmente (implícita ou explicitamente) aderem ao princípio da universalidade, vale a pena investigar em que medida essas abordagens também podem ser aplicadas a estruturas observadas em linguagens visuais-gestuais, ou seja, em como até agora, os formalismos sugeridos são independentes do modo de transmissão do sinal. De fato, até hoje, numerosos esforços foram feitos para demonstrar que as abordagens formais expressas dentro da Gramática Gerativa (Governo e Encadernação, Minimalismo, Morfologia Distribuída, Teoria da Otimidade) podem explicar as estruturas da linguagem de sinais, ou seja, derivar os padrões atestados e excluir os não atestados. É seguro dizer que esses esforços foram bem-sucedidos. Ainda assim, precisamos perguntar se as peculiaridades da articulação manual – pensar, por exemplo, na disponibilidade de dois articuladores (as duas mãos) e o uso gramatical do espaço – não nos confrontam ao mesmo tempo com fenômenos que são difíceis de serem resolvidos. captura em modelos que foram desenvolvidos com base em idiomas falados.

Neste painel, vamos primeiro fornecer uma breve visão geral da interação entre as abordagens sintáticas formais e lingüística da língua de sinais, ou seja, o impacto de modelos formais no estudo das estruturas da linguagem de sinais, e vice-versa. Em seguida, apresentamos duas linhas de pesquisa sobre essa interação. Ronice apresentará um estudo sobre a mistura de códigos bimodais, ou seja, a mistura simultânea de sinais e da linguagem falada em enunciados produzidos pela audição de signatários nativos. Obviamente, a combinação simultânea de elementos lexicais e estruturas sintáticas não é uma opção em linguagens faladas e, portanto, os modelos existentes não são projetados para capturar esse fenômeno. Ronice demonstrará como um modelo formal pode explicar os padrões de combinação, às vezes bastante complexos. Roland abordará o fenômeno sintático Negative Concord (NC) em sua contribuição. Nas linguagens de sinais, a negação pode ser expressa por elementos manuais (partículas) e marcadores não manuais (por exemplo, quebra de cabeça), que se combinam de maneiras específicas do idioma. A Roland argumentará que um modelo formal que assume que elementos negativos carregam características não interpretáveis ​​ou interpretáveis ​​(que devem ser verificados) pode ser responsável por diferentes tipos de NC observados em linguagens gestuais, ou seja, NC envolvendo elementos manuais e / ou não manuais.

14:00 – 14:15 Roland Pfau & Ronice M. de Quadros: Introdução: Modalidade e teoria
14:15 – 14:50 Ronice M. de Quadros: Mesclando modalidades de idiomas
14:50 – 15:25 Roland Pfau: Concordagem Negativa em linguagens gestuais
15:25 – 16:00 Discussão

Rotas de Mudança no léxico do Português

Participantes: Graça Rio-Torto & Mário Viaro

Vagas: 100

A tensão entre estabilidade e mudança, entre conservadorismo e inovação que define as línguas, também se reflete no léxico, na sua arquitetura, nos seus constructos lexicais, nos seus padrões de formação e de construção de palavras, nos recursos morfolexicais e morfossemânticos ao serviço desta. Como os demais setores da língua, o léxico é feito de mudança, vivendo dela e nela. Os sucessivos períodos de reorganização estrutural do léxico da língua portuguesa acompanham as demais alterações da língua nos diferentes domínios, pelo que será valorizado o interfaceamento com a fonologia, a morfologia, a semântica, a sintaxe, a pragmática, em estreita articulação com as condições discursivas e textuais de uso, os factores sociocognitivos e os contactos interidiomáticos que moldam o funcionamento das línguas. Nesta mesa-redonda intenta-se descrever e analisar algumas das tendências mais/menos prototípicas das mudanças ocorridas, os domínios de emergência das mesmas, as suas motivações, as suas repercussões dentro do léxico, na língua, na periodização desta, na reanálise, na gramaticalização, na lexicalização e na ressemantização operadas, na orgânica das tipologias textuais, entre muitos outros aspetos. A natureza extremamente heterogénea do léxico e a multiplicidade de fatores que criam dinâmicas de mudança no seu interior justificam a heterogeneidade de embasamento teórico e a diversidade da base empírica do estudo, que pode ser o português do Brasil, vernacular ou não, o Português de Portugal, hodierno ou de épocas pretéritas, em qualquer uma das suas variedades diatópicas, diastráticas e/ou diafásicas.

Linguística e Resistência

Participantes: Anna Christina Bentes, Eleonora Albano, Marcus Maia & Rodrigo Fonseca

Vagas: 100

Depois do contingenciamento recente de 42%, para 2019, nos recursos de investimentos do MCTIC e de 21% no MEC, a situação do país em termos de pesquisa acadêmica é bastante grave. Qual o papel da Linguística neste cenário? Reunimos pesquisadores de diferentes campos da Linguística para refletir acerca de como a área resiste e colabora na resistência em tempos políticos sombrios como o que passamos.