NOTÍCIAS

O que se investiga na área de LA: Letramentos (Multiletramentos, letramento acadêmico e letramento crítico)?

Letramentos é um grande campo de pesquisa que tem relação estreita com a LA. Nesse campo, estudamos a língua em suas práticas sociais, ou seja, em seus habitats e culturas, compreendendo quevisões de sociedade e de sujeito refletem. Nele, língua não é vista sem corpo, estudada e aprendida como se não importasse que pessoas ou sujeitos a elaboram e usam, de onde falam… Nessa perspectiva, os letramentos não veem a língua em sua singularidade, de forma generalizada, e sim, nas suas pluralidades. Por isso a ideia dos multis – os multiletramentos e as multimodalidades – tem tanta relevância. Há o reconhecimento da diversidade de culturas dentro de uma mesma língua e de que a língua não se resume à oralidade e escrita, havendo outras modalidades, uma percepção que possibilitou ativar essas multimodalidades que sempre existiram e que estiveram ‘congeladas’ nos estudos linguísticos, como as imagens, sons, tons, gestos. E muito dessa percepção ocorreu porque a linguagem digital possibilitou ou contribuiu para que isso acontecesse. E assim emergiram os letramentos visuais e digitais, que têm hoje espaço cada vez mais ampliado. 

Os letramentos críticos se fortalecem dentro dessa perspectiva da pluralidade cultural linguística, das práticas sociais, da asserção de que língua e cultura não são neutras. E assim defendem que o processo de letramento – o ler, escrever e contribuir para a formação de cidadãos ativos, participantes na sociedade – não se restringe ao método fônico, que não pode se limitar ao modelo convencional ou o ‘modelo autônomo’, como no conceito de Street (1984). 

Ou seja, os Letramentos englobam as vertentes dos Multiletramentos, dos Novos Letramentos, dos Letramentos Críticos, dos Letramentos Visual e Digital. No entanto, não vejo essa sintonia com o Letramento Acadêmico. Acho que este, de modo geral, prioriza uma perspectiva linguística convencional. Bem, acho que o Letramento Acadêmico pode ser ampliado, pode se aproximar da visão de letramentos a qual me referi. Mas, por enquanto, uma boa parte do que vejo referente ao ‘acadêmico’ se refere ao viés linguístico clássico [hegemônico]. 

Qual a importância dos estudos de Letramentos? Quais as aplicações de resultados de estudos nessa área?

Destaco aqui duas grandes contribuições desses estudos e que os tornam tão importantes hoje: as pluralizações (o reconhecimento da heterogeneidade, da diversidade, do hibridismo) e a perspectiva crítica (a percepção das relações de poder no discurso; que a língua não é neutra, é política. Isto é, ela reflete uma visão de sociedade, seu modus operandi, e dos modos de atuação dos sujeitos nessa sociedade, via as suas várias instituições.

Nas publicações da década de 90, autores dessa área, como Luke e Freebody (1997), salientaram a importância dessa outra visão de Letramentos (no caso deles, deram maior destaque aos letramentos críticos). Ao recordar a história do processo de alfabetização no ocidente, os autores descrevem uma “educação colonial” que se baseava no que era tido como ‘básico’ (the basics), isto é, o reconhecimento de palavras, escrita manual, soletração e leitura em voz alta; e o que era compreendido como ‘clássico’ (the classics): exposição ao cânone do que era considerado ‘literatura de valor’. E nem todos os estudantes conseguiam dar conta dos dois estágios, afirmam os dois estudiosos. Como se vê, esse quadro retrata um modelo cujas relevâncias já estão escolhidas e legitimadas. Nele não estão previstas as pluralizações, as diversidades, o desenvolvimento de uma crítica social. Avalio que o projeto iluminista-modernista de sociedade (MONTE MOR 2017) pode ter feito uma decisão didática para a disseminação do ler e escrever, assim adotando a ‘simplificação linguística’ (a que não considera as pluralidades, como nos dizeres de Kalantzis e Cope 2012), mas nessa decisão há uma visão política subjacente. 

Pode citar exemplos de estudos recentes na área cujos resultados ilustram a importância da área?

Há muitos estudos nas várias regiões do Brasil. O colega Lynn Mario Menezes de Souza e eu coordenamos um projeto há mais de 10 anos – o Projeto Nacional de Letramentos: Linguagem, Cultura, Educação e Tecnologia – e o sediamos na USP. É um projeto colaborativo, construído juntamente com colegas de 30 universidades de todas as regiões brasileiras. Nosso compromisso conjunto é o de promover estudos locais e integrar a universidade com a Educação Básica nessas respectivas cidades. Em alguns estados, mais cidades participam, não só a da universidade. Começamos esse projeto focalizando a língua inglesa; hoje temos colegas de língua portuguesa, de espanhol, de pedagogia, de história e de tecnologia, em número pequeno, mas com participação muito relevante. Já foram feitas mais de 450 publicações significativas dos estudos realizados.  

Vejo a importância desse trabalho nas parcerias que foram e são formadas com secretarias municipais e estaduais de educação, na oferta de programas de formação inicial e continuada com perspectivas locais visando atender necessidades específicas, na contribuição com as discussões sobre programas de licenciatura e, mesmo, na alteração de vários programas departamentais na área de Letras e Linguística Aplicada. Nossa ideia nesse projeto é contribuir com alternativas, valorizando a pluralização de projetos de formação docente e discente. Nos preocupamos com uma sociedade mais plural [e menos injusta].  

Há métodos específicos na pesquisa em letramentos?

Bem, como valorizamos o estudo linguístico sem separar a língua de seus habitats e culturas, uma metodologia de pesquisa que atende bem a esse princípio é a de natureza etnográfica e qualitativa. Pode também haver levantamentos quantitativos, com análises qualitativas. Também temos trabalhos desenvolvidos com pesquisa-ação e estudos de caso. Nas pesquisas em Letramentos Digitais, utilizamos a etnografia para a internet ou etnografia virtual.

Mas acho importante dizer que uma questão central em boa parte das investigações é de ordem epistemológica. Temos nos voltado para a epistemologia digital que aborda outros modos de construção de conhecimento. Aí, temos refletido e explorado uma premissa: se os conhecimentos são organizados / construídos de maneiras diferentes às convencionais vistas em métodos positivistas de investigação, achamos que devemos criar e experimentar metodologias condizentes a essas diferentes epistemologias. Não podemos nos restringir a contar com os procedimentos convencionais de conhecer, mensurar, avaliar e generalizar. Encontramos apoio a essa perspectiva em outros pesquisadores dessa área, como Leander (2013) e Knobel e Kalman (2016).    

Que habilidades deve-se esperar de um pesquisador interessado nesta área de investigação?

Observo que os pesquisadores na área de Letramentos desenvolvem – ou já têm desenvolvidas – habilidades críticas, criativas e interpretativas. Têm também abertura para pesquisar as multimodalidades, a diversidade, as pluralizações… Mas creio que essas habilidades não sejam diferentes para as outras áreas, não é? 

Quais as especificidades da pesquisa em letramentos realizada no Brasil? Quais os desafios?

Acho que na resposta à pergunta 1, falei sobre as especificidades dessa pesquisa. E no Brasil, concordando com Gee (2015), vejo-a numa perspectiva que agrega Linguística Aplicada e Educação. 

Quanto aos desafios, são muitos. Vou mencionar dois deles. De natureza política: é uma proposta que implica maior ampliação do desenvolvimento crítico e da compreensão acerca do projeto de sociedade que vivemos e da formação de sujeitos nessa sociedade. O atual momento político do país, por exemplo, desfavorece essa visão por parte dos governos e de uma determinada parcela conservadora, embora haja bastante reconhecimento sobre a necessidade desse foco por parte de outras parcelas da sociedade. De natureza das políticas educacionais: deveria haver maior investimento num projeto de formação docente e discente. A partir desses, podemos traçar inúmeros outros desafios, mas não vou me alongar mais nessa interação.  

Referências

GEE, J.P. Literacy and Education. London and New York: Routledge, 2015.

KALANTZIS, M.; COPE, B. Literacies. New York, Melbourne, Madrid, Capetown: Cambridge University Press, 2012.

KNOBEL, M.; KALMAN, J. Teacher Learning, DigitalTechnologies and New Literacies. in Knobel, M. and Kalman, J. (Eds) New Literacies and Teacher Learning:  Professional Development and the Digital Turn, NY: Peter Lang, 2016, pp 1-20.

LEANDER, K. “You won’t be needing your laptops today”. Wired bodies in the wireless classrooms. In Lankshear, C.; Knobel, M. (Eds) A New Literacies Reader
New York, Oxford: Peter Lang Publishing, 2013, p 57-75.

LUKE, A.; FREEBODY, P. Shaping the Social Practices of Reading. In Muspratt, S., Luke, A.; Freebody, P. (Eds) Constructing Critical Literacies. Teaching and Learning Textual Practice. Cresskill, New Jersey: Hampton Press, 1997, p 184-225.

MONTE MOR, W. Sociedade da Escrita e Sociedade Digital: Línguas e Linguagens em Revisão. In: TAKAKI, Nara Hiroko; MONTE MOR, Walkyria (org.). Construções de Sentido e Letramento Digital Crítico na Área de Línguas/Linguagens. Campinas: Pontes, 2017, p. 267-286.

STREET, B. Literacy in theory and practice. Cambridge, Cambridge University Press, 1984.