EVENTOS

ABRALIN em Cena é uma iniciativa da Associação Brasileira de Linguística que tem como objetivo incentivar o diálogo entre pesquisadores brasileiros. Sua proposta é destacar as linhas de pesquisa dos Programas de Pós-Graduação da localidade onde se realiza o evento e/ou discutir temas de fulcral importância no âmbito das demandas sociais contemporâneas.

A 14.ª edição do evento aconteceu na Universidade de Campinas, no período de 21 a 23 de novembro de 2019 e teve como tema Fake News e Linguagem. Segue abaixo a chamada para submissão de trabalhos no evento.

Com acesso de aproximadamente 70% da população brasileira à Internet, em geral através do celular (IBGE, 2018), a diferença do modo de circulação de informação nas novas mídias nos traz desafios que vão desde a distinção entre o valor da verdade científica e a verdade dos fatos até – em nosso caso – uma reflexão voltada para os países que navegam e produzem informação em língua portuguesa. O que é possível fazer para melhor compreendermos o fenômeno das notícias falsas no ambiente digital e criar condições para promover o acesso igualitário à informação e ao conhecimento online?

As notícias falsas não são novidades entre nós, e sempre houve a possibilidade de se incomodar com elas assim como de verificá-las. Por exemplo, Hannah Arendt (1967), em Verdade e Política, aponta para as dificuldades estruturais da relação entre a política e a verdade. Michel Foucault ([1983-84] 2011), em A Coragem da Verdade, nos leva pela história dos sistemas de pensamento na compreensão da verdade em suas aulas no Collège de France.

Do ponto de vista epistemológico, ao refletirmos a partir de uma racionalidade, poderíamos pensar em desinformação, ou em equívocos. Entretanto, o que estamos presenciando na realidade brasileira é muitas vezes uma agenciamento de novas tecnologias de maneira a conduzir o leitor de boa fé, sem que ele tenha à disposição recursos claros e objetivos para se dar conta deste investimento das notícias falsas em integrar modificar e arraigar seus valores. Da perspectiva da linguagem, há um mundo de relações e imprecisões no qual precisamos compreender melhor. A Agência Lupa, que iniciou o processo de checagem de fatos no Brasil, aponta para uma gradação de categorias que vão de: Verdadeiro (A informação está comprovadamente correta), Verdadeiro, mas… (A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações), Ainda é cedo para dizer (A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é), Exagerado (A informação está no caminho correto, mas houve exagero), Contraditório (A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte), Subestimado (Os dados são mais graves do que a informação), Insustentável (Não há dados públicos que comprovem a informação), Falso (A informação está comprovadamente incorreta) e De olho (Etiqueta de monitoramento). Lúcia Santaella (2018), em A Pós-Verdade é verdadeira ou falsa? aponta, entre outras possibilidades, para um ambiente da pós-verdade, em que nós escolheríamos deliberadamente acreditar em algo e desconsiderar fatos que venham a destituir nossas crenças. São caminhos de reflexão para os quais convidamos você.

A UNESCO em relação às transformações e inovações digitais propõe que trabalhemos para «facilitar a aquisição de habilidades básicas no uso de computadores para todos, popularizar a implementação do uso de tecnologias de informação e comunicação (TIC) para o desenvolvimento sustentável e a paz». No caso deste evento, nós queremos refletir a respeito deste fenômeno das fake news e apreender a dinâmica das notícias falsas no ambiente digital em língua portuguesa. Isto nos permitirá apresentar referências à/o cidadã/o falante de língua portuguesa de modo que ela/ele possa identificar que está recebendo uma notícia falsa, negociar novas informações para rever o que recebeu, e estar melhor informada/o sobre seus assuntos preferidos.

Mais informações, no site oficial do evento.

Referências:

Agência Lupa.

Arendt, H. Verdade e política. Título original: «Truth and Politics». Este texto foi publicado pela primeira vez em The New Yorker, em Fevereiro de 1967 e integrado no livro «Between Past and Future», editado no ano seguinte. Tradução por Manuel Alberto.

Foucault, M. A Coragem da Verdade: o governo de si e dos outros (II). Curso no Collège de France (1984-1984). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2011. ISBN 978-85-7827-476-4

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. ISBN 978-85-240-4481-6. IBGE, 2018.

Santaella, L. A Pós-Verdade é verdadeira ou falsa? Barueri, SP: Estação das Letras e Cores, 2018. ISBN 978-85-68552-80-3

UNESCO. Alfabetização Midiática e Informacional (AMI).